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Por que rompi com o Radiohead (ou: uma carta ao Forasta e àqueles que nunca enxergaram a genialidade da banda)

O quinteto foi a melhor banda do mundo durante três anos, aí resolveram mudar do sublime pro barulhinho.

Imagem: Jovem Pan.

Entre 1997 e 2000, o Radiohead foi o melhor – ou mais interessante, o que dá quase no mesmo – grupo de Pop e Rock do planeta. Não apenas eu os considerava, mas parte significativa de público e crítica também. E à parte que não concorda, ou não concordava, dou o direito de estar errada. […]

Entre 1997 e 2000, o Radiohead foi o melhor – ou mais interessante, o que dá quase no mesmo – grupo de Pop e Rock do planeta. Não apenas eu os considerava, mas parte significativa de público e crítica também. E à parte que não concorda, ou não concordava, dou o direito de estar errada.

Se bem que, em 1998, o Neutral Milk Hotel lançou o incomparável In the Aeroplane Over the Sea e, desde que o conheci, em 1999, nenhuma obra me espantou de forma igual. Anteriormente, só Reign in Blood, do Slayer. Mas estou desviando do tema e peço desculpas.

Voltando a 1997. Foi o ano em que o Radiohead soltou OK Computer. Esse disco, futuramente, será colocado na mesma prateleira de combinação entre beleza espantadora e inovação de Pet Sounds, dos Beach Boys, e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Para quem é mais avançado na obra dos ingleses, pode substituir por The White Album.

Durante os anos seguintes, escutava OK Computer e pensava: “Esta é a música mais bonita da história (‘Let Down’, no caso)”. Passadas algumas semanas, eu me corrigia: “Não. É esta (‘Lucky’)”. Até que fechei a conta em “Paranoid Android”.

E foi assim que levei até Kid A sair, em 2000.

Na ansiedade de não parecerem o John Travolta no meme de Pulp Fiction, aqueles que se consideravam entendidos de música fizeram questão de imediatamente bradarem a genialidade da curva em U da banda de um trabalho para o outro, antes mesmo de a digerirem.

A curva em U aconteceu, sim. Eles tinham subvertido em Ok Computer toda a expectativa sobre um conjunto Pop com uma combinação de melodias e harmonias inesperadas que tangenciava o inacreditável. Olhando em retrospectiva, a discografia já apontava para isso, com Pablo Honey escalando para The Bends até chegar ao pico do Himalaia em 97.

E, após a analogia montanhosa, talvez tenha sido exatamente isso o que aconteceu com a banda.

Dali só subiriam se voassem. E foi nesse ponto que imagino Thom Yorke e companhia pegando o retorno de 180º e descendo a montanha rolando a partir de Kid A, com sua intenção de beatsloops, vozes processadas e gelo eletrônico, até chegarem ao que produzem hoje: uma massa chata e enfadonha de faixas que parecem pedir desculpa por existirem.

Vou tentar explicar melhor na comparação dos dois álbuns.

OK Computer não era genial porque complicava o Pop. Era genial porque complicava o Pop sem matar a canção. Essa diferença é tudo. O Radiohead de 1997 fazia uma espécie de sabotagem interna do formato: desmontava a expectativa, quebrava o caminho óbvio, enfiava acordes onde uma banda comum procuraria conforto, esticava melodias até o quase descontrole, mas continuava entregando música com nervo, rosto e ferida.

Thom Yorke cantava como alguém tentando manter a própria cabeça acima da água. As melodias subiam e despencavam, às vezes num salto que parecia emocional antes de ser musical. Em “Paranoid Android”, a voz atravessa blocos distintos como se estivesse mudando de sala dentro de um pesadelo. Em “Karma Police”, o canto tem aquela resignação de quem acusa o mundo já sabendo que também faz parte da sujeira. Em “Let Down”, talvez a obra-prima secreta dentro da obra-prima oficial, a melodia gira em torno de uma célula simples, quase infantil, mas volta tantas vezes com outra luz que a simplicidade deixa de ser simplicidade. Vira insistência. Vira desamparo.

É aí que OK Computer ganha. O disco sabe repetir sem empobrecer. “No Surprises” parece uma caixinha de música encontrada no quarto de uma criança depois do fim do mundo. Aquela melodia poderia ser doce. Poderia. Mas o arranjo a cerca de uma tristeza tão educada que chega a ser pior. É uma música que sorri com os dentes cerrados. O efeito não vem de virtuosismo exibido. Vem da combinação entre forma simples e veneno lento.

O álbum inteiro funciona assim. Nada ali segue o atalho da canção comercial de modo obediente, mas nada se perde no labirinto do conceito. “Airbag” abre o disco com um riff que parece torto, metálico, meio ressuscitado de um acidente. “Subterranean Homesick Alien” flutua como se Brian Wilson tivesse sido abduzido por uma banda deprimida de Oxford. “Exit Music (For a Film)” começa quase em oração e termina em colapso. “Lucky” tem a beleza de uma emergência aérea narrada por alguém que já aceitou a queda. “The Tourist” fecha tudo em marcha lenta, como se o disco dissesse ao próprio século: vá devagar, idiota, você está se matando.

A sofisticação de OK Computer não está apenas nas letras sobre alienação tecnológica, consumo, transporte, colapso psicológico e modernidade paranóica. Isso muita gente comentou, comentou bem, comentou demais e seguirá comentando. O que ainda me pega é como essas ideias aparecem dentro da música sem precisar virar panfleto. A harmonia nunca estaciona completamente. As guitarras não fazem só base; criam clima e ameaça. Os teclados entram como fantasmas. Os efeitos não decoram. Eles narram.

E há “Paranoid Android”, claro. A música que, a rigor, não deveria funcionar. Longa demais para o rádio, quebrada demais para ser hino, teatral demais para ser simples, torta demais para ser progressiva no sentido ruim da palavra. Mesmo assim, funciona como poucas coisas funcionaram no Rock dos anos 1990. São músicas dentro de uma música, estados mentais dentro de um colapso único. A cada virada, a banda parece dizer: você achou que sabia onde estava? Achou errado, otário, pois não sabe mais.

Esse era o milagre. O Radiohead conseguia ser cerebral sem perder sangue. Conseguia ser estranho sem virar exercício. Conseguia parecer avançado sem desprezar quem ouvia. OK Computer não simplificava o mundo para caber numa canção; ampliava a canção até ela conseguir comportar o mundo. Era a máquina, o medo, o avião, o subúrbio, a televisão, o tédio, a ansiedade e aquela sensação, muito fim de milênio, de que a humanidade tinha inventado coisas demais para continuar humana sem pagar algum preço.

Então veio Kid A.

E aqui começa meu rompimento.

Não me incomoda uma banda mudar. Ao contrário. Banda que não muda vira cover de si mesma (tirando Ramones, AC/DC, Motorhead e….acho melhor refazer essa frase. Quer saber? Vai assim mesmo, se não perco o final do argumento), e poucas coisas são mais tristes do que um artista aprisionado no próprio acerto. O problema não foi o Radiohead abandonar a guitarra como centro. O problema foi trocar a fricção humana por um laboratório de sensações frias e, pior, pedir que chamássemos aquilo de salto evolutivo automático.

A guitarra, em OK Computer, era motor, coluna e faca. Em Kid A, ela desaparece ou vira acessório tímido, quase envergonhada de ter seis cordas. No lugar, entram sintetizadores, texturas eletrônicas, ruídos processados. A banda descobriu o catálogo da Warp, descobriu Aphex Twin, Autechre, a inteligência rítmica da eletrônica mais cerebral, e resolveu que precisava deixar de soar como banda para soar como cabeça pensando dentro de um freezer.

Funciona? Para muita gente, sim. Para mim, muito muito pouco. E cada vez menos.

“Everything in Its Right Place” abre o disco como manifesto: voz picotada, frase circular, teclado frio, uma beleza quase clínica. É uma grande faixa, admito. Talvez justamente por ainda preservar alguma assombração humana no centro da experiência. Mas ali já se anuncia a troca que me incomoda. A voz de Thom Yorke, antes uma ferida exposta, passa a ser textura. O canto deixa de carregar a música e começa a ser tratado como material de apoio.

Eu entendo a ideia. Só não sou obrigado a me comover com ela.

Em OK Computer, Yorke parecia alguém tentando dizer alguma coisa antes que a pane engolisse tudo. Em Kid A, muitas vezes parece que a pane venceu antes da frase nascer. A voz vira gelo, sinal de rádio, fragmento. A humanidade entra processada. O desespero continua ali, mas perdeu o rosto. E eu preciso do rosto. Talvez seja limitação minha. Aceito. Mas é uma limitação que me salvou de muito disco pretensioso.

A bateria de Phil Selway, antes parte orgânica da tensão, também passa por essa assepsia. O pulso humano cede lugar a loops, batidas tratadas, repetições quase impessoais. A banda quer parecer menos uma banda. Quer virar atmosfera. Quer virar instalação. Quer virar tese sonora sobre o esfacelamento contemporâneo. Em alguns momentos, consegue. Em outros, só fica chata.

“The National Anthem” é o melhor exemplo do lado que os defensores de Kid A adoram usar como prova de coragem. Tem baixo hipnótico, metais em surto, caos de Free Jazz, sombra de Charles Mingus, um mundo entrando em combustão. Eu reconheço a ambição e a inteligência. Só acho que ambição e inteligência não bastam. Existe uma diferença entre caos como linguagem e caos como álibi. Em OK Computer, o desconforto vinha amarrado à canção. Em Kid A, muitas vezes a canção é sacrificada para que o desconforto seja contemplado como obra de arte.

E aí perdemos algo.

Perdemos a melodia que grudava sem ser banal. Perdemos a beleza ferida. Perdemos aquela sensação rara de que o experimentalismo estava ali a serviço de uma emoção mais funda, não de uma declaração de ruptura. Kid A parece, em boa parte, um disco feito contra o próprio prazer de escutar o Radiohead. Como se a banda tivesse ficado constrangida por ter feito um álbum grande demais e precisasse provar ao mundo – e talvez a si mesma – que não seria devorada pela própria grandeza.

É uma reação compreensível. Mas compreensível não significa boa.

O estranho é que, para muita gente, esse gesto virou prova definitiva de gênio. Como se abandonar aquilo que você faz melhor fosse, por si só, sinal de superioridade. Como se frieza fosse maturidade. Como se a dificuldade de acesso fosse sempre profundidade. Como se toda vez que uma banda troca guitarra por ruído, melodia por textura e refrão por repetição, estivéssemos diante de uma revolução estética.

Não estamos.

Às vezes é só uma banda brilhante ficando com medo de ser amada pelos motivos certos.

Essa talvez seja a minha principal implicância com Kid A. O disco tem momentos muito bons, mas sua canonização criou uma chantagem crítica. Quem não embarcou integralmente passou a ser tratado como alguém preso ao Rock, ao formato canção, ao passado, à guitarra, à adolescência auditiva. Bobagem. Eu gosto de eletrônica. Gosto de ruído. Gosto de disco difícil. Gosto de artista que arrisca. O que me irrita é o truque retórico que transforma qualquer afastamento da beleza em avanço.

Porque beleza também é radical. Melodia também pensa. Uma canção pode ser mais perigosa do que uma instalação sonora inteira se souber onde tocar.

OK Computer sabia.

Kid A, às vezes, parece preferir não tocar em nada diretamente. Faz cara de quem viu o futuro e voltou entediado. O mundo entrou no século 21 quebrado, e o Radiohead percebeu isso antes de muita gente. Mérito enorme. Mas, ao perceber, parece ter concluído que a resposta estética adequada era também quebrar a relação com o ouvinte. Criar distância. Cortar a ponte. Ficar mais inteligente do que necessário.

O resultado foi uma obra reverenciada, influente, corajosa e, para mim, muitíssimo inferior. Um disco que respeito mais do que escuto. Que entendo mais do que amo. Que até admiro como gesto e abandono como companhia.

Meu rompimento com o Radiohead não foi raiva. Foi luto. Luto besta, claro, porque ninguém deve tanto assim a uma banda. Mas luto. Eu tinha visto aqueles cinco sujeitos chegarem a um lugar quase impossível: uma música popular sofisticada, emocionalmente devastadora, formalmente ousada e ainda assim cantável, reconhecível, humana. Eles podiam ter saído dali para qualquer lugar. Escolheram sair do corpo.

E eu fiquei no corpo.

Fiquei com “Let Down”, “Lucky”, “Paranoid Android”, “No Surprises”, “Exit Music (For a Film)”, “Airbag”, “The Tourist”. Fiquei com a banda que ainda parecia feita de pulmão, fio desencapado, metal e vertigem. Fiquei com o Radiohead que olhava para a modernidade como quem olha para um acidente iminente e, mesmo assim, encontrava uma melodia no meio dos destroços.

Depois disso, vieram discos importantes, faixas bonitas, lampejos, respeito, entrevistas inteligentes, capas excelentes, discussões intermináveis e a devoção de uma igreja crítica que trata cada suspiro de Thom Yorke como se tivesse sido encontrado num sítio arqueológico do Indiana Jones. Tudo bem. Cada um com sua fé.

A minha ficou em 1997.

Ou, sendo mais justo, ficou naquele corredor curto entre The Bends e OK Computer, com uma última hesitação antes de Kid A fechar a porta por dentro.

Não digo que o Radiohead morreu ali. Seria exagero, e exagero bom precisa carregar alguma verdade. Digo outra coisa: ali morreu o Radiohead que me interessava. A banda que conseguia fazer o sublime sem pedir desculpa. A banda que ainda não tinha transformado a própria inteligência em proteção contra a emoção. A banda que, durante três anos, talvez tenha sido a melhor do mundo.

Depois, para muita gente, começou a fase genial.

Para mim, começou o barulhinho.

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