Hassan era um adolescente de Gaza com autismo cujo parade de vida mudou com a guerra. A família, que vivia cercada por racionamento, perdeu o rastro dele após ele pegar a bicicleta e seguir por ruas que já não eram as mesmas. O relato mostra como o desaparecimento se tornou uma realidade comum em Gaza.
Ali e Abeer passaram meses buscando Hassan entre abrigos, hospitais e ruínas. Em abril de 2024, a escassez de comida, água e energia acentuou o sofrimento. Hassan saiu de casa em meio ao caos familiar, sumiu e nunca mais retornou. A família descreve uma busca incansável.
A situação do irmão de Hassan ilustra a problemática mais ampla: milhares de pessoas continuam desaparecidas em Gaza. As autoridades locais estimam números acima de 9 mil, enquanto organizações humanitárias variam entre 9 mil e 11 mil, com projeções que sugerem até 14 mil a 15 mil casos não resolvidos.
Desafios forenses e governança das informações
A ausência de infraestrutura forense em Gaza agrava o enigma. A ausência de laboratórios, permissões de acesso a tecnologias de identificação e restrições impostas por bloqueios dificultam o reconhecimento de corpos e a devolução de nomes às famílias. O resultado é uma “desaparição jurídica” prolongada.
O hospital Al-Shifa abriga o departamento de medicina forense, liderado por Khalil Hamada. Ele relata que muitos corpos chegam sem identificação, impossibilitando exames completos. Em Gaza, a prática de identificação depende muito da reconhecimento visual, dificultando casos degradados pela violência.
Para tentar um caminho, uma comissão conjunta de saúde, religião e defesa civil autoriza enterros em sepulturas numeradas e mapeadas digitalmente. O objetivo é preservar pistas para futuras identificações caso haja acesso a DNA ou outras ferramentas. Mesmo assim, o progresso é lento e inseguro.
O que esses números representam
Instituições como o Ministério da Saúde de Gaza, o Centro Palestino de Pessoas Desaparecidas e a Cruz Vermelha relatam milhares de casos não resolvidos. O ICRC recebeu milhares de solicitações de rastreamento, com quase metade permanecendo sem solução. As estimativas variam conforme novas informações surgem.
O depoimento de famílias expõe o impacto humano: buscas persistentes, posters, redes sociais e contatos com influenciadores não geram respostas. Abeer descreve o processo de busca como uma experiência que corrói a mente e não traz encerramento.
Além de Hassan, outros relatos destacam cenas semelhantes de desorientação, restos mortais encontrados em escombros e a necessidade de protocole de identificação que prima pela dignidade, mesmo diante de dificuldades logísticas extremas.
Interlocução internacional e resposta
Autoridades israelitas afirmam cumprir o direito internacional e tomar precauções para minimizar danos civis, mas não respondem a pedidos de comentário sobre detenções. O relatório também aponta querestrições a itens de diagnóstico e a acesso de organizações humanitárias prejudicam a busca por identidades.
Enquanto o conflito persiste, a ausência de dados confiáveis e a dificuldade de localizar famílias elevam o sofrimento de quem busca por um parente desaparecido. As autoridades locais continuam a registrar restos e a buscar métodos que permitam, no futuro, reconhecer e sepulturar com dignidade as vítimas.
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