A Rússia mira o Brasil como parceiro estratégico na área de energia nuclear, ampliando seu uso como instrumento de política externa. A ofensiva é liderada pela estatal Rosatom e envolve aspectos econômicos, tecnológicos e geopolíticos, alinhados a interesses de Vladimir Putin.
Em Brasília, uma reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira ocorreu na última semana de maio. O ministro russo do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, afirmou que Moscou pretende expandir a cooperação nuclear com o Brasil, destacando a atuação da Rosatom.
Reshetnikov enfatizou que a Rosatom pode atender às necessidades das usinas brasileiras e fornecer radioisótopos para pesquisa e saúde, além de indicar perspectivas de construção de novas unidades de energia, de várias capacidades. A declaração foi veiculada pela agência Interfax.
A parceria nuclear Brasil-RRosatom já tem contratos firmados. Ao final de 2022, a TENEX, subsidiária da Rosatom, fechou acordo com a Indústrias Nucleares do Brasil para enriquecimento de urânio destinado a combustível de Angra dos Reis até 2027. Outra unidade da Rosatom fornece produtos isotópicos para medicina nuclear.
Perspectivas e implicações geopolíticas
Relatórios de think tanks indicam que Moscou busca parcerias nucleares com países do Sul Global que mantêm relações estáveis com a Rússia, especialmente em um contexto de tensões com o Ocidente. Analistas destacam o peso estratégico da Rússia na área pacífica de tecnologia nuclear, com participação significativa no enriquecimento de urânio.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo ressaltam que a Rússia atua para ampliar sua presença em mercados emergentes, com foco na competição com a França no setor de reatores nucleares de uso pacífico. A busca por know-how tecnológico brasileiro também é citada como motivo para a intensificação da cooperação.
Entre as razões apontadas para o interesse russo, está a busca por acesso a tecnologias brasileiras de centrífugas, consideradas eficientes em termos de custo. A cooperação nuclear brasileira já passou por inspeções internacionais, associadas a períodos de tensão entre potências ocidentais e o Brasil.
Especialistas divergirem sobre o eventual uso militar da parceria. Há cautela quanto a extensões para fins estratégicos, como cooperação em projetos de submarinos de propulsão nuclear, observando que as negociações costumam envolver diferenças entre autoridades de alto nível e tecnocratas.
Isso tudo ocorre em meio a tensões internacionais sobre sanções e restrições a importações de urânio e combustíveis nucleares, com o objetivo de limitar a influência russa no setor. O Brasil, por sua vez, analisa impactos econômicos e estratégicos de ampliar o relacionamento com a Rosatom.
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