Deputados da oposição apresentaram ao Congresso do Paraguai um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana em meio à crise do Ueno Bank, um dos maiores bancos do país. A instituição teve os serviços suspensos e os depósitos de cerca de 3 milhões de clientes foram congelados.
O deputado Mauricio Espínola, dissidente da base governista, afirmou à agência de notícias AFP que o pedido reuniu as assinaturas necessárias para ser analisado pela Câmara dos Deputados. A discussão foi marcada para esta quinta-feira (5), às 10h, no mesmo horário de Brasília.
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O documento pede a abertura do processo por “mau desempenho de suas funções no exercício do cargo”. Entre os pontos apresentados contra Peña estão uma suposta situação de conflito de interesses e questionamentos sobre o crescimento de seu patrimônio.
Peña assumiu a Presidência em 2023, para um mandato até 2028, e possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank. Ele deixou essa participação em 2025.
Clientes voltam às ruas em Assunção
Centenas de manifestantes protestaram em Assunção na noite de quarta-feira (4), cobrando a devolução dos recursos depositados no banco e o julgamento político do presidente.
No mesmo dia, longas filas se formaram diante de agências do Ueno Bank, com clientes tentando retirar o dinheiro.
“É o dinheiro da nossa aposentadoria, que agora não sabemos se vamos receber”, afirmou à AFP a médica Teresa Montiel, que participou do protesto com um cartaz escrito “Unidos somos mais fortes”.
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai (BCP) decidiu intervir no banco por insuficiência de capital. Os serviços da instituição foram então suspensos.
O Ueno Bank possui contas de quase metade dos 6,4 milhões de habitantes do Paraguai. O episódio também levou à renúncia do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo.
Oposição acusa governo de favorecer banco
A oposição afirma que Peña teria tomado “decisões regulatórias supostamente favoráveis ao Ueno Bank” e questiona a concentração de recursos previdenciários na instituição diante de seus antigos vínculos com o banco.
O pedido de impeachment também alcança o vice-presidente Pedro Alliana.
Para que o processo avance na Câmara dos Deputados, são necessários 53 votos entre os 80 parlamentares. Caso seja aprovado, o julgamento passa ao Senado, onde a destituição depende de 30 votos entre 45 senadores.
O Partido Colorado, de Peña, possui maioria nas duas Casas do Congresso. O presidente da legenda e ex-presidente do Paraguai, Horacio Cartes, no entanto, se distanciou do governo.
Governo promete liberar parte dos depósitos
Peña sancionou na quarta-feira uma lei aprovada rapidamente pelo Congresso para antecipar a liberação de parte do dinheiro aos clientes afetados.
Segundo o texto, a medida permitirá aos correntistas receber “no menor prazo possível, parte do fundo de garantia, a fim de que o dinheiro volte para as mãos daqueles a quem corresponde”.
A previsão é de que os pagamentos sejam realizados em até cinco dias.
O Banco Central afirmou que os clientes com recursos congelados receberão inicialmente até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 9 mil.
“Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (cerca de R$ 7). Todos têm que ser presos”, afirmou à AFP Marcelino Vergara, de 68 anos.
O Congresso também aprovou um dos três nomes indicados pelo Executivo para recompor o conselho diretor do Banco Central, órgão que, segundo a Constituição paraguaia, possui autonomia.
Oito diretores do Ueno Bank foram presos
O Banco Central apresentou uma denúncia contra o Ueno Bank na terça-feira (3). No mesmo dia, oito diretores da instituição foram presos, entre eles o presidente do banco, Miguel Vázquez.
A crise financeira e política ocorre 14 anos depois do último impeachment de um presidente paraguaio.
Em 2012, Fernando Lugo foi destituído pelo Congresso depois de um confronto que terminou com a morte de 11 camponeses e seis policiais, a cerca de 250 quilômetros de Assunção. Lugo havia chegado à Presidência em 2008, encerrando 61 anos seguidos de governos do Partido Colorado.
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