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Liquidação de maior banco digital do Paraguai gera crise política no país

Oposição prepara pedido de impeachment de presidente e protestos tomam as ruas após resolução do Ueno Bank

Protestante armando soco contra policial no Paraguai
Onda de protestos tomou o Paraguai após liquidação do Ueno Bank | Foto: Daniel Duarte / AFP

O presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia nesta terça-feira (3), pouco depois de anunciar o início de um procedimento de resolução do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país. A medida foi tomada após a identificação de problemas no índice de solvência da instituição e provocou preocupação entre clientes, que se reuniram diante de agências fechadas.

Carvallo, que comandou o Ueno até agosto de 2023, vinha sendo pressionado pela forma como o Banco Central supervisionou a instituição e pelas ligações políticas envolvendo o banco.

Apesar da renúncia, ele afirmou que permanecerá no cargo enquanto os procedimentos relacionados ao Ueno forem conduzidos.

“Afastar-me ajudará a acalmar a controvérsia em torno do BCP”, declarou Carvallo durante uma entrevista coletiva.

Segundo ele, a saída permitirá que o Banco Central e a Superintendência de Bancos continuem o trabalho sem interferências provocadas por disputas políticas e pela repercussão pública do caso.

Clientes cobram acesso ao dinheiro

A crise provocou apreensão entre clientes, incluindo aposentados que recebem pagamentos pelo Ueno.

Nesta terça-feira, pessoas aguardavam do lado de fora de agências fechadas em busca de informações e acesso aos recursos depositados.

“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, afirmou Manuel Cáceres, morador de Ñemby, à Reuters nos arredores de Assunção. “Infelizmente, muitas pessoas, inclusive eu, estão passando a manhã assim.”

O Ministério Público do Paraguai também solicitou nesta terça-feira a abertura de uma investigação criminal sobre os fatos envolvendo o banco.

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O Ueno tem aproximadamente 3 milhões de clientes e administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai. A instituição pertence majoritariamente ao Grupo Vázquez e teve forte crescimento nos últimos anos, em modelo semelhante ao adotado por bancos digitais como Nubank e Monzo.

Nos últimos meses, o banco passou a enfrentar maior fiscalização devido a suspeitas de concessão excessiva de crédito para empresas ligadas ao próprio Grupo Vázquez.

A situação afetou a confiança de investidores e pressionou tanto os títulos em dólares emitidos pelo Ueno, com vencimento em 2031, quanto os títulos públicos paraguaios.

Organizações convocam protesto em Assunção

A crise também provocou reação de organizações sociais e políticas. Julio López, presidente da Associação de Segurados do Instituto de Previdência Social (IPS), classificou o episódio como uma “fraude monumental, quase histórica de desfalque, de roubo aos interesses da classe trabalhadora”. A declaração foi dada à rádio paraguaia Universo 970 AM.

Organizações sociais e políticas convocaram uma manifestação para esta quarta-feira (4), às 18h, em frente ao Panteão Nacional dos Heróis, em Assunção.

“Nós nos orientamos pela necessidade de unidade de ação porque, separadas, as organizações pouco podem fazer neste momento para exercer pressão e exigir as orientações que acreditamos que tanto a Justiça quanto o governo devem adotar”, afirmou López.

Ele disse ainda que representantes de diferentes organizações se reuniram na terça-feira para definir uma atuação conjunta.

“Vamos exigir o esclarecimento dos fatos e a determinação das responsabilidades sobre esta situação lamentável”, declarou López. Segundo ele, estão envolvidos valores “muito significativos”, e o episódio representa uma afronta aos interesses de parte da população.

Pressão sobre o presidente paraguaio

A crise envolvendo o Ueno Bank também aumentou a pressão política sobre o presidente do Paraguai, Santiago Peña. Oposicionistas trabalham na elaboração de um texto acusatório que poderá servir de base para uma eventual tentativa de impeachment do presidente.

Peña, que assumiu a Presidência em 2023 para um mandato até 2028, possuía ações de um grupo que controlava o Ueno Bank. Ele se desvinculou dessa participação em 2025.

Segundo o senador oposicionista Rafael Filizzola, o prejuízo relacionado ao caso supera US$ 3 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 16,47 bilhões. Em declaração à AFP, ele afirmou que a oposição considera que Peña tem ligação direta com o episódio.

O presidente “tem participação direta porque existe um mecanismo que foi montado antes mesmo de ele assumir o governo”, acusou Filizzola. Segundo o senador, depois da chegada de Peña ao poder, houve flexibilização de mecanismos das leis anticorrupção e crescimento do banco, do qual o presidente era acionista antes de deixar a participação.

“Quase todos os recursos públicos e as economias do Estado foram direcionados ao banco. Sua ligação com esse escândalo é direta”, afirmou o parlamentar.

Banco Central diz que caso é isolado

Segundo o Banco Central, o procedimento de resolução busca proteger os clientes do Ueno e preservar a estabilidade do sistema financeiro.

A autoridade monetária afirmou que o problema é isolado e não representa uma crise mais ampla no setor bancário paraguaio.

A Superintendência de Bancos nomeou interventores para verificar a real situação financeira e patrimonial da instituição.

Os depósitos estão protegidos até o limite equivalente a 75 salários mínimos, aproximadamente US$ 39 mil, conforme a legislação paraguaia de garantia de depósitos. O Banco Central também afirmou que os pagamentos aos aposentados estão garantidos.

*com informações das agências de notícias Reuters e AFP

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