A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, no domingo (15), foi marcada por aplausos, críticas e reação política. Com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e levou para a […]
A estreia da Acadêmicos de Niterói no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, no domingo (15), foi marcada por aplausos, críticas e reação política. Com o enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a escola homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e levou para a avenida uma ala que ironizou grupos classificados pela agremiação como “neoconservadores em conserva”.
A ala, batizada exatamente com esse nome, apresentou fantasias em formato de latas de conserva. Dentro delas, foliões representavam quatro grupos apontados pela escola como opositores do presidente: evangélicos, integrantes do agronegócio, uma mulher de classe alta e defensores da ditadura militar. Segundo a Acadêmicos de Niterói, a proposta foi criticar setores que, na avaliação da escola, “atuam fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6 x 1”.
A encenação rapidamente se tornou o ponto mais controverso do desfile. Críticos afirmaram que a representação configurou escárnio e preconceito, especialmente contra evangélicos. Aliados da escola e defensores do enredo, por outro lado, sustentaram que o Carnaval é um espaço histórico de crítica social e política, protegido pela liberdade artística.
Desfile histórico e presença do presidente

A apresentação começou às 22h13 no Sambódromo e durou 79 minutos, dentro do limite máximo permitido de 80. Lula acompanhou o desfile presencialmente, no camarote cedido pela Prefeitura do Rio, ao lado de ministros, aliados e governistas. Foi a primeira vez que um presidente da República em exercício se tornou o tema central de um desfile de escola de samba durante o Carnaval.
Ao longo da história da festa, sete presidentes brasileiros já foram retratados por escolas de samba, mas nenhum havia sido homenageado enquanto ocupava o cargo. A primeira-dama Janja da Silva chegou a ser anunciada para desfilar no último carro alegórico, ao lado de amigos do presidente, mas desistiu de última hora. O receio de que a participação fosse interpretada como campanha eleitoral antecipada pesou na decisão.
Reação política e disputa judicial

A ala “Neoconservadores em conserva” provocou reação imediata de políticos de oposição.
Nesta segunda-feira (16), integrantes da oposição acionaram a PGR (Procuradoria-Geral da República) contra a escola Acadêmicos de Niterói por causa de um trecho do desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A ala retratou evangélicos com fantasias em formato de “latas de conserva”, em apresentação exibida no Brasil e no exterior.
As notícias-crime foram apresentadas pelo senador Magno Malta (PL-ES) e pelo deputado federal Rodolfo Nogueira (PL-MS). Nos pedidos, os parlamentares afirmam que houve ridicularização pública de um grupo religioso e sustentam que a encenação teria ultrapassado os limites da manifestação artística, com possível enquadramento criminal.
Magno Malta cita o artigo 20 da Lei 7.716/1989 e classifica o episódio como discriminação religiosa. Segundo o senador, a representação fez uma equiparação visual de fiéis a objetos enlatados, expondo evangélicos a escárnio. Ele pede abertura de investigação e responsabilização dos envolvidos.
A senadora Damares Alves afirmou que o desfile foi um “ataque direto à fé cristã” e disse que “usar verba pública para ridicularizar a Igreja Evangélica é inadmissível”. Ela também declarou que a apresentação teria incluído zombaria contra o agronegócio e configuraria perseguição religiosa.
O deputado federal Kim Kataguiri criticou a ala e, ao lado do partido Novo, apresentou ações judiciais para barrar o desfile. Os pedidos, porém, foram rejeitados. O Tribunal Superior Eleitoral negou uma liminar que buscava impedir a apresentação, acompanhando o voto da relatora Estela Aranha.
Na esfera administrativa, o partido Novo protocolou uma representação no TCU (Tribunal de Contas da União) para tentar suspender o repasse de R$ 1 milhão da Embratur à escola. A área técnica se manifestou a favor do bloqueio, mas o relator, Aroldo Cedraz, negou o pedido e manteve os recursos.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, disse nas redes sociais que pretende levar o caso à Justiça. Para ele, o desfile configurou preconceito religioso financiado com dinheiro público. “Os 50 milhões de evangélicos do Brasil estão pagando isso tudo. Inadmissível”, escreveu.
Enredo, símbolo e trajetória da escola
Fundada em 2018, a Acadêmicos de Niterói disputou apenas três carnavais antes de vencer a Série Ouro em 2025 e garantir vaga no Grupo Especial. Em 2026, passou a competir com escolas tradicionais como Mangueira, Portela e Salgueiro, levando para a elite um enredo explicitamente político.
O título do desfile faz referência ao mulungu, árvore nativa do Brasil conhecida cientificamente como Erythrina velutina. Presente principalmente na Caatinga e na Mata Atlântica, a planta pode atingir até 15 metros de altura e floresce entre agosto e janeiro. No enredo, o mulungu simbolizou resistência, esperança e renascimento, metáforas associadas pela escola à trajetória de Lula, do operário metalúrgico à Presidência da República.
Debate aberto
A polêmica em torno do desfile expôs novamente o Carnaval como palco de disputas simbólicas e políticas. Para críticos, a linha entre crítica social e ofensa foi ultrapassada. Para defensores da escola, a reação confirma o papel da festa como espaço de provocação e debate público.
Enquanto ações judiciais são prometidas e manifestações se acumulam, a Acadêmicos de Niterói encerrou sua estreia no Grupo Especial sob os holofotes nacionais, transformando um desfile de samba em mais um capítulo da polarização política brasileira.
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