Se existe uma inspiração para a escrita na minha vida, esta é Nelson Rodrigues. Se permitirem que sejam duas, incluo Dostoievski, de quem Nelson era o fã número dois, logo atrás de mim. Nelson possuía o domínio do verbo que transmuta o lodo em mármore. Se ele redigisse bulas de remédio, eu as leria com […]
Se existe uma inspiração para a escrita na minha vida, esta é Nelson Rodrigues. Se permitirem que sejam duas, incluo Dostoievski, de quem Nelson era o fã número dois, logo atrás de mim. Nelson possuía o domínio do verbo que transmuta o lodo em mármore. Se ele redigisse bulas de remédio, eu as leria com a devoção de quem busca a salvação entre contraindicações. Sinto a morte de seu filho, Nelson Rodrigues Filho, justamente pela admiração que nutro pelo pai, ausente desde 1980, mas vivo em cada linha que tenta sobreviver à anemia das inteligências artificiais.
Quis o destino que minha única visita ao Maracanã, o estádio Mário Filho (batizado em honra ao irmão de Nelson), ocorresse em uma tarde de 1995. Era o Fla-Flu do gol de barriga de Renato Gaúcho. Eu não estava lá tanto pelo jogo. Queria habitar as histórias que li nas crônicas esportivas. Buscava nos gramados os personagens que Nelson criava com nomes que pesavam mais que a bola: Amarildo, o Possesso; Gerson, o Canhota de Ouro; e a majestade de Nilton Santos, a Enciclopédia.
Pouco antes do início, olhei por cima do ombro. Vi um homem gesticulando sozinho, em um transe tricolor. Era Nelson Rodrigues Filho. Tinha uma barba longa, de patriarca feudal, e a urgência nervosa de quem carrega um sobrenome que é, ao mesmo tempo, um brasão e uma ferida. Tomei aquilo como um sinal de boas-vindas do próprio Nelson: um fantasma literário autorizando minha entrada no seu templo de concreto.
Nelsinho não foi apenas um herdeiro. Foi o ponto de mutação na obra do pai. Nelson pai, o cronista que se dizia reacionário, viu o mundo ruir quando o filho foi preso e torturado pelo regime militar. Ali, a prosa mudou. O deboche contra os “padres de passeata” e a “esquerda festiva” cedeu lugar a uma angústia paterna que transbordava pelas colunas. Nelson não hesitou: usou seu prestígio para bater à porta do general Geisel. O homem que pregava a ordem viu-se obrigado a implorar pela vida do filho contra a desordem da violência estatal. Sua escrita, antes focada na metafísica do pecado, tornou-se um grito de sobrevivência.
A influência de Nelson Rodrigues no jornalismo brasileiro é uma cicatriz profunda e permanente. Ele assassinou o que chamava de “idiota da objetividade”. Antes dele, o jornalismo era uma sucessão de dados frios e distantes. Nelson introduziu a subjetividade como ferramenta de verdade. Ele provou que um jogo de futebol não é apenas um resultado: é um drama humano, uma guerra de deuses e demônios camuflados em calções curtos.
Nelson ensinou gerações de repórteres que o detalhe é o que importa. O jornalista que descreve apenas o gol é um burocrata; o que descreve o suor do zagueiro e a esperança do torcedor é um narrador. Ele criou um léxico nacional: o “óbvio ululante”, a “unanimidade burra”, o “complexo de vira-lata”. Sem Nelson, o jornalismo esportivo brasileiro seria um deserto de estatísticas sem alma. Ele deu ao texto jornalístico a musculatura da literatura russa, permitindo que o cronista de cotidiano tivesse a dignidade de um romancista.
A morte de Nelson Filho, 45 anos após a partida do pai, fecha a cortina de uma linhagem que nunca aceitou o adjetivo decorativo. Fica o silêncio do Maracanã vazio. Mas, para quem ainda tenta escrever com ritmo, fica a lição: a vida não se explica, se sente. E se for para sofrer, que seja com a elegância trágica de um Rodrigues.
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