Dizem que o ano começa definitivamente pós-carnaval. Em 2026 ele iniciou com a ciência brasileira sendo protagonista mundial. O motivo foi uma substância estudada há quase três décadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vem ajudando pacientes a recuperar movimentos. A polilaminina, desenvolvida pela equipe da cientista Tatiana Sampaio, na UFRJ, é um […]
Dizem que o ano começa definitivamente pós-carnaval. Em 2026 ele iniciou com a ciência brasileira sendo protagonista mundial. O motivo foi uma substância estudada há quase três décadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vem ajudando pacientes a recuperar movimentos.
A polilaminina, desenvolvida pela equipe da cientista Tatiana Sampaio, na UFRJ, é um composto criado a partir da laminina, proteína que já existe no corpo humano e ajuda a estruturar tecidos. Basicamente, ela funciona como uma “matriz” que orienta células e pode favorecer a reparação de áreas lesionadas, por isso virou referência em pesquisas sobre lesão na medula e recuperação de movimentos.
Enquanto um caso específico ganha visibilidade, outros brasileiros seguem trabalhando em silêncio.Nesta matéria você conhece cinco pesquisadores e estudantes brasileiros que têm ganhado destaque por iniciativas inovadoras em saúde, tecnologia e sustentabilidade.
Anna Luísa Beserra Santos

Anna Luísa Beserra Santos é uma cientista e empreendedora brasileira que, aos 15 anos, criou uma tecnologia chamada Aqualuz. A ideia surgiu de um problema bem comum no semiárido. Quando chove, muita gente junta a água que escorre do telhado e guarda em cisternas, grandes reservatórios usados para atravessar os meses de seca. O ponto é que essa água pode ficar com sujeira e micróbios, pois passa pelo telhado, pelos canos e pelo próprio armazenamento.
O Aqualuz foi pensado para deixar essa água mais segura de beber. Ele usa energia do sol para ajudar no processo de desinfecção, sem depender de tomadas nem de equipamentos complicados. Onde o saneamento básico é limitado, essa tecnologia promete fazer a diferença.
Para levar a solução além do protótipo, ela é CEO e fundadora da SDW For All (Sustainable Development & Water for All), uma empresa de impacto voltada a tecnologias de água e saneamento para comunidades.
Em 2019, aos 21 anos, Anna Luísa foi reconhecida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) como Young Champion of the Earth na América Latina e no Caribe, pelo trabalho ligado ao acesso à água com o Aqualuz.
Matheus Henrique Dias

Biomédico e especialista em biologia molecular, Matheus trabalha com uma estratégia pouco comum contra o câncer. Em vez de tentar apenas bloquear o crescimento do tumor, a proposta é forçar as células cancerígenas a acelerarem processos internos até o ponto em que elas entram em colapso, como se o próprio funcionamento da célula ficasse sobrecarregado e parasse de vez.
Segundo o Instituto Butantan, a abordagem mostrou-se altamente eficaz na destruição de células tumorais e, ao mesmo tempo, mais direcionada ao câncer do que aos tecidos saudáveis. Em testes com modelos animais de câncer colorretal, houve redução dos tumores.
Matheus fez doutorado e pós-doutorado no instituto e depois seguiu com a pesquisa no exterior. Hoje, ele aparece no perfil institucional do Netherlands Cancer Institute (NKI) como Senior Scientist, com foco em biologia do câncer, redes de sinalização e ciclo celular.
Luciano Andrade Moreira

Luciano Andrade Moreira é um pesquisador que virou referência em uma estratégia contra a dengue, zika e chikungunya.
Seus estudos focam em “trocar” a capacidade de transmissão do Aedes aegypti por um mosquito que carrega a bactéria Wolbachia. Essa bactéria, comum na natureza, funciona como um bloqueio interno, dificultando que os vírus se multipliquem no corpo do mosquito e reduzindo a chance de a picada virar infecção. Foi esse trabalho, desenvolvido no Brasil ao longo de mais de uma década, que colocou o nome dele na lista Nature’s 10, com outras nove pessoas que moldaram a ciência em 2025.
Na prática, Moreira lidera a operação de escala dessa tecnologia. Ele está à frente da Wolbito do Brasil, estrutura que produz mosquitos com Wolbachia em grande volume para soltura planejada em cidades, em parceria com instituições como o World Mosquito Program e a Fiocruz.
O plano é soltar mosquitos com Wolbachia para que eles se reproduzam com a população local e, aos poucos, aquela região passe a ter mais mosquitos “bloqueadores” do que transmissores. A ambição é enorme, com produção na casa de centenas de milhões de ovos por semana e um plano de proteção que pode alcançar dezenas de milhões de pessoas ao ano.
Nuno Miguel Mendonça Abilio

Nuno é um estudante de Ciência da Computação da Universidade Estadual de Maringá e ganhou destaque ao vencer a primeira edição do Hackathon pela Saúde, promovido pela BD em parceria com a Enactus Brasil. Um hackathon é uma maratona de criação, em que participantes têm um tempo curto, geralmente de horas a poucos dias, para desenvolver uma solução prática para um desafio real, com mentoria e apresentação final para uma banca.
Ao lado de João Vitor Ribeiro Lima, da UFMS, ele criou uma solução que combina inteligência artificial e processamento de imagens para automatizar o diagnóstico de doenças infecciosas a partir de amostras de sangue. A ideia é usar visão computacional para analisar imagens do material no microscópio, identificar padrões ligados a agentes infecciosos e padronizar uma etapa que costuma depender de leitura manual, acelerando o resultado e reduzindo margem de erro em cenários com pouca estrutura.
Tatiana Sampaio

Cientista atualmente em eviência, Tatiana é bióloga e professora da UFRJ, onde chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular, no Instituto de Ciências Biomédicas. Há mais de duas décadas, ela trabalha em uma linha de pesquisa que busca entender como ajudar o sistema nervoso a se reorganizar depois de uma lesão grave na medula. O caminho que o grupo dela seguiu passa pela laminina, uma proteína presente no corpo humano obtida a partir da placenta, que atua como uma espécie de “andaime” natural para as células. A partir desse estudo, a equipe desenvolveu a polilaminina, uma versão feita em laboratório para interagir com o tecido lesionado e tentar ampliar processos de regeneração.
A ideia é aplicar a substância diretamente no local da lesão durante a cirurgia, criando uma estrutura (“andaime”) de suporte que funcione como uma ponte microscópica e ajude os neurônios a formar novas rotas de comunicação entre o cérebro e o corpo. Os resultados mais citados até agora vêm de estudos em animais e de um trabalho preliminar com oito pacientes com lesão medular aguda, em que houve diferentes níveis de recuperação motora, com melhora significativa em alguns casos e evolução menor em outros.
Mesmo assim, Tatiana reforça que o que existe hoje é uma promessa, não um tratamento pronto. A Anvisa autorizou em janeiro o início dos ensaios clínicos regulatórios em humanos, começando pela fase 1, voltada à segurança, mas essa etapa ainda depende de avaliação na comissão de ética.
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