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João Fonseca perdeu para Sinner. Ainda assim, fez história

Ele saiu de quadra maior do que entrou. Não pelo ‘perdeu, mas foi guerreiro’, mas porque se instalou na elite de vez

(Divulgação)

Quem gosta de esporte, mas só olha para o futebol, está deixando escapar uma das coisas mais empolgantes que o Brasil produziu nos últimos tempos: o surgimento de João Fonseca no tênis de elite. E não se trata de modismo, carência de ídolo ou patriotada de ocasião. O tênis é, provavelmente, o esporte mais difícil […]

Quem gosta de esporte, mas só olha para o futebol, está deixando escapar uma das coisas mais empolgantes que o Brasil produziu nos últimos tempos: o surgimento de João Fonseca no tênis de elite.

E não se trata de modismo, carência de ídolo ou patriotada de ocasião. O tênis é, provavelmente, o esporte mais difícil de todos entre os grandes. Difícil na técnica, na velocidade, na estratégia e, sobretudo, na exigência mental.

Começa pelo básico, que no tênis nunca é básico: há um ser humano tentando domesticar uma bola em altíssima velocidade com um instrumento prolongando o braço. Isso já seria bastante. Mas o jogo ainda acrescenta a brutalidade do tempo. Saques e golpes de direita (ou esquerda, nos canhotos) passam dos 200 km/h. Nessas situações, o jogador tem algo perto de um quarto de segundo para responder. Não apenas para tocar na bola. Para responder bem.

E responder bem, no tênis, é quase uma violência civilizada. Porque não basta sobreviver ao golpe. É preciso devolvê-lo de modo a empurrar o adversário para o desconforto, desmontar seu equilíbrio, inverter a lógica do ponto. Tudo isso em frações de segundo.

Por isso, o grande tenista não joga apenas com o braço. Joga com leitura. Antes de a bola sair da raquete do outro lado, ele já tenta decifrar lançamento, ombro, tronco, empunhadura, direção provável. Não reage apenas ao que vê. Antecipar é parte do ofício.

A essa dificuldade física se soma a camada mais fascinante do jogo: a mente. Tênis é um esporte em que o colapso psicológico fica exposto sem edição. O silêncio em volta da quadra não é frescura nem liturgia vazia. É ambiente de trabalho. Qualquer oscilação mental altera tudo: o timing, a escolha, o peso da mão, a coragem, a paciência.

Talvez por isso seja tão interessante ver uma partida de alto nível. Quase sempre há um momento em que se sente, antes mesmo de o placar mostrar, que alguém “voltou para o jogo”. É uma expressão batida, mas precisa. O sujeito estava perdendo não apenas nos números, mas na presença, no controle, no eixo. De repente, volta. E o jogo muda de dono.

Tudo isso serve para chegar a João Fonseca.

Ele enfrentou pela primeira vez Jannik Sinner, hoje um dos grandes monstros do circuito, desses jogadores que, em dia bom, parecem jogar um tênis quase sem brecha. João tem 19 anos. Está, portanto, na idade em que o futebol costuma transformar talento em consagração instantânea, mas o tênis ainda exige cozimento lento.

E aí está uma diferença decisiva entre os esportes. No futebol, de tempos em tempos aparece um menino que já parece pronto. No tênis, quase nunca. Primeiro surge o talento. Depois vêm o corpo, a casca, a experiência, a gestão emocional, a leitura dos momentos, a repetição dos grandes jogos. O auge costuma ser construção, não explosão.

Foi assim com Federer, Nadal, Djokovic, Sampras, Guga. Cada um à sua maneira. Todos precisaram atravessar esse corredor entre o dom e a maturidade. É por isso que João Fonseca entusiasma tanto: porque o que já apareceu tão cedo não é apenas o brilho do golpe. É a robustez competitiva.

A partida contra Sinner, no Masters 1000 de Indian Wells, deixa isso muito claro. João perdeu em dois tie-breaks. Perdeu, portanto, no detalhe mais estreito, no fio do jogo, naquele território em que normalmente os muito jovens entregam, se afobam ou desaparecem. Ele fez o contrário. Sustentou a tensão, buscou reação no segundo set, suportou o tamanho do adversário, o peso do palco e a velocidade da partida.

Perdeu, sim. Mas a derrota, às vezes, revela mais do que muita vitória decorativa.

João saiu de quadra maior do que entrou. Não pelo consolo sentimental de “perdeu, mas foi guerreiro”, fórmula que costuma maquiar inferioridades. Saiu maior porque mostrou repertório, frieza, entendimento do jogo e, acima de tudo, pertencimento. Não parecia um convidado diante de um gigante. Parecia alguém começando a se instalar na mesa principal.

Isso é o que importa.

Porque o tênis não costuma dar esse tipo de sinal por gentileza. Quando um garoto de 19 anos empurra um dos melhores do mundo até o limite, o circuito inteiro percebe. O público percebe. O adversário percebe. E, mais importante, o próprio jogador percebe.

Escrevo e já me corrijo.

João Fonseca não saiu de Indian Wells como quem fez uma boa figura.

Saiu como quem avisou que chegou.

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