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Guerra pressiona diesel e gasolina no Brasil, ameaça abastecimento e pode encarecer alimentos

Escalada no Oriente Médio elevou o petróleo para US$ 100, travou parte da oferta global e levou o governo a zerar tributos federais sobre o diesel para tentar conter a alta.

A guerra no Oriente Médio já começou a afetar o Brasil. A escalada do conflito elevou o preço internacional do petróleo, aumentou a pressão sobre a oferta global de combustíveis e acendeu o alerta para alta do diesel, da gasolina e do gás de cozinha no país. Nesta quinta-feira, o barril do petróleo Brent voltou […]

A guerra no Oriente Médio já começou a afetar o Brasil. A escalada do conflito elevou o preço internacional do petróleo, aumentou a pressão sobre a oferta global de combustíveis e acendeu o alerta para alta do diesel, da gasolina e do gás de cozinha no país.

Nesta quinta-feira, o barril do petróleo Brent voltou a rondar os US$ 100 após a piora da crise na região. O mercado acompanha com preocupação os riscos no Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do fluxo global de petróleo e gás natural liquefeito.

Com ataques a navios, redução de produção em países do Golfo e gargalos logísticos, a oferta mundial ficou mais apertada. O resultado foi uma reação rápida dos preços.

A Agência Internacional de Energia aprovou uma liberação emergencial de estoques, mas o mercado segue operando com forte volatilidade diante das incertezas sobre os próximos passos do conflito.

Efeitos já começaram a aparecer no Brasil

No Brasil, os impactos já começaram a ser sentidos. O preço médio do diesel avançou nos postos no início de março, enquanto distribuidoras e importadores passaram a relatar mais dificuldade para operar em um cenário de pressão internacional e defasagem dos preços internos em relação ao mercado externo.

A Petrobras também adotou medidas para conter distorções. A estatal passou a rejeitar pedidos extras de diesel fora dos contratos firmados, em meio à forte pressão sobre o abastecimento e os preços.

Diante desse cenário, o governo federal anunciou a zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel. Também foi divulgada uma subvenção a produtores e importadores para reduzir o impacto imediato ao consumidor.

Segundo estimativa oficial citada pela Reuters, o alívio pode chegar a cerca de R$ 0,64 por litro, considerando a soma das duas medidas.

Alta do petróleo pode virar inflação

Para o educador financeiro Reinaldo Domingos, o primeiro efeito de uma disparada do petróleo tende a ser a inflação.

Segundo ele, o combustível é um insumo central da economia mundial, com impacto direto sobre transporte, energia e diferentes cadeias produtivas. Quando o barril sobe de forma intensa, o repasse costuma chegar em sequência para empresas e consumidores.

“O primeiro impacto tende a ser a inflação. O petróleo está no centro da economia global. Quando o preço dispara, os custos aumentam rapidamente para empresas de diversos setores, pressionando os preços finais ao consumidor”, afirma.

Na avaliação do especialista, o choque não fica restrito às bombas. Ele também reduz margens das empresas, desestimula investimentos e enfraquece o consumo das famílias.

Se o cenário se prolongar, o efeito pode ir além da inflação e atingir o ritmo da atividade econômica, com risco de desaceleração mais ampla.

Repasse pode chegar rápido aos combustíveis

No caso do Brasil, Reinaldo Domingos avalia que o repasse aos preços pode ocorrer em prazo relativamente curto. Mudanças mais fortes no petróleo e no câmbio podem chegar à gasolina e ao diesel em poucas semanas, a depender do nível dos estoques e da política comercial adotada pelas distribuidoras.

O gás de cozinha também costuma acompanhar esse movimento no curto prazo.

Já o impacto sobre os alimentos tende a aparecer de forma mais gradual, mas dificilmente é evitado. Isso ocorre porque o transporte rodoviário responde pela maior parte da circulação de mercadorias no país, e o diesel está entre os principais componentes do custo do frete.

Quando esse custo sobe, toda a cadeia sente os efeitos.

“Qualquer aumento relevante no diesel encarece o frete e acaba pressionando toda a cadeia de produção e distribuição. Historicamente, quando os custos sobem, o repasse ao consumidor acontece rápido. A queda, por outro lado, costuma demorar mais”, diz.

Transporte, indústria e agronegócio estão entre os mais expostos

A alta dos combustíveis preocupa setores estratégicos da economia. Transporte rodoviário de cargas, ônibus, aviação, turismo, indústria e agronegócio estão entre os segmentos mais expostos.

No campo, o efeito é ainda mais sensível porque o diesel influencia desde a operação de máquinas até o escoamento da produção.

Em meio à pressão, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil pediu ao governo aumento imediato da mistura obrigatória de biodiesel no diesel para 17%. A proposta busca reduzir a dependência do combustível fóssil importado e amortecer parte da alta internacional.

Alguns setores podem ganhar, mas saldo tende a ser negativo

Apesar do cenário de pressão, alguns segmentos podem se beneficiar. Empresas ligadas à exploração e produção de petróleo e gás tendem a ganhar mais receita em momentos de alta da commodity.

Setores voltados à eficiência energética e a fontes alternativas também podem ganhar espaço, na medida em que combustíveis fósseis mais caros tornam outras soluções mais competitivas.

Ainda assim, para Reinaldo Domingos, o saldo para a economia brasileira tende a ser mais negativo do que positivo no curto prazo.

Embora o país seja produtor e exportador relevante de petróleo, a alta dos combustíveis pressiona a inflação, corrói o poder de compra das famílias e afeta diretamente o custo de vida.

“O efeito para o Brasil é ambíguo, mas o impacto doméstico tende a ser pesado. O choque não atinge só a bomba. Ele afeta transporte, produção, logística e o orçamento das famílias, especialmente num país que já convive com perda de poder de compra e inadimplência elevada”, afirma.

Medidas existem, mas alcance é limitado

Se a crise no Estreito de Ormuz continuar, os instrumentos para conter os danos existem, mas têm alcance limitado.

Governos podem reduzir tributos temporariamente, liberar estoques estratégicos e criar subsídios pontuais. Já os bancos centrais enfrentam um dilema: subir juros para conter uma inflação de custos pode esfriar ainda mais a atividade econômica.

Por isso, a tendência inicial costuma ser acompanhar os desdobramentos e agir apenas se a alta passar a contaminar as expectativas de inflação de forma mais ampla.

No fim, a guerra no Oriente Médio reforça uma fragilidade antiga da economia brasileira: a dependência do diesel para mover cargas, alimentos e serviços.

Quando o petróleo dispara no exterior, o impacto chega rápido ao mercado interno. E, mesmo com medidas emergenciais do governo, o risco segue o mesmo: combustível mais caro, frete mais alto e pressão crescente no orçamento do consumidor.

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