Em Alta NotíciasConflitosPessoasAcontecimentos internacionaiseconomia

Converse com o Telinha

Telinha
Oi! Posso responder perguntas apenas com base nesta matéria. O que você quer saber?

Um streaming que ainda sabe o que está mostrando

Descobri (anos após ser lançada) uma plataforma brasileira que surge como lembrança civilizada de que cinema não é só arquivo: é escolha, contexto e olhar

Este é um texto que tem olho, nariz, fuça de publi, e até nasceu com um certo cheiro de publi no ar, mas a recomendação aqui é para valer. Talvez eu estivesse desinformado sobre o mapa atual do streaming. Talvez apenas empapuçado, intoxicado mesmo, pela multiplicação de plataformas, pela distribuição esquizofrênica dos catálogos e pela […]

Este é um texto que tem olho, nariz, fuça de publi, e até nasceu com um certo cheiro de publi no ar, mas a recomendação aqui é para valer. Talvez eu estivesse desinformado sobre o mapa atual do streaming. Talvez apenas empapuçado, intoxicado mesmo, pela multiplicação de plataformas, pela distribuição esquizofrênica dos catálogos e pela irritação muito específica de querer ver um filme e ter de sair garimpando entre cinco, seis, sete vitrines diferentes para descobrir, ao fim da romaria, que justamente o que você queria ver exigiria mais uma assinatura. Mais uma mensalidade. Mais um aplicativo. Mais uma senha esquecida no inferno digital. Foi assim que conheci a Filmicca.

A proposta, em algum ponto, lembra a da MUBI no que ela tem de mais simpático: a tentativa de substituir a ideia de streaming como hipermercado pela ideia de streaming como seleção. Menos depósito, mais recorte. Menos a lógica do “tem de tudo um pouco” e mais a do “alguém pensou no que está pondo aqui”. 

No meu caso, a relação com a MUBI sempre foi parecida com esses planos anuais de academia: o sujeito assina cheio de boas intenções, comparece com entusiasmo nas primeiras semanas, depois vai rareando, e no segundo ou terceiro mês já se concede o direito à ausência definitiva. A Filmicca me pareceu outra conversa. Menos performance de cinefilia, mais utilidade amorosa para quem realmente quer ver filme.

E aí entra o ponto principal. Não é só mais uma plataforma tentando ocupar um nicho. Ela é uma plataforma brasileira e independente, criada em 2021 por Gracielly Pinto, com foco claro em cinema autoral, cult, clássico e contemporâneo. Ela nasce de uma experiência anterior de curadoria e distribuição ligada à Supo Mungam, justamente com a proposta de trazer para o público brasileiro filmes que muitas vezes não chegam nem às salas, nem às plataformas maiores, nem à conversa pública. 

Isso muda o tom de tudo. Porque, quando uma plataforma nasce de uma relação concreta com distribuição, programação e formação de público, ela não escolhe catálogo como quem abastece geladeira de conveniência. Escolhe como quem conhece o buraco do mercado brasileiro. E o buraco é conhecido: muito filme importante não passa de nicho invisível por aqui. Não porque seja ruim. Ao contrário. Às vezes porque é bom demais para a prateleira errada, sutil demais para o algoritmo, estrangeiro demais para a preguiça local, feminino demais para o velho patriarcado, ou simplesmente porque não entra no funil industrial que determina o que o espectador “médio” deveria desejar. A Filmicca parece ter sido montada justamente para brigar com esse tipo de estreitamento. 

Hoje, a plataforma informa ter cerca de 630 filmes disponíveis, vindos de 90 países, com um acervo que vai das primeiras décadas do cinema a obras dos anos 2020. A maior parte está em Full HD; muitos clássicos aparecem em versões restauradas; e a regra da casa é tentar manter os títulos por pelo menos dois anos no catálogo. Você pode descobrir um filme hoje e vê-lo daqui a algumas semanas sem aquela chantagem típica do streaming contemporâneo, esse “corra, último dia”, como se toda relação com arte tivesse de ser administrada como liquidação de shopping.

Outro mérito é o desenho do acervo. A Filmicca organiza seus filmes em curadorias e coleções que já funcionam como um pequeno ensaio sobre o próprio ato de ver. Há vitrines como Pelo Olhar Delas, Um País, Uma Joia, Inéditos & Recentes, Obras Essenciais e os mais assistidos do momento. É uma arquitetura que não empurra apenas “o que está bombando”, mas propõe caminhos. 

Há ainda um traço editorial que merece ser dito sem o jargão habitual das apresentações institucionais: a plataforma tem um olhar para diversidade de território e de autoria. Isso aparece na presença de filmes de países que quase nunca entram no radar brasileiro e também na ênfase em diretoras e cinematografias menos domesticadas pelo eixo tradicional de prestígio. Não se trata de transformar a plataforma em panfleto de virtude, o que seria insuportável. Trata-se de algo mais interessante: ampliar o repertório sem tocar trombeta. Fazer com que o espectador encontre Agnès Varda, Kelly Reichardt, Céline Sciamma ou Alice Rohrwacher como quem encontra cinema, não como quem preenche formulário moral. 

E aqui talvez esteja a diferença mais saborosa entre uma boutique de cinema de verdade e o varejo audiovisual que tomou conta da paisagem. Nos streamings gigantes, filme costuma entrar no catálogo c para compor volume. Nesta, ao menos pela sensação que produz, cada entrada quer dizer alguma coisa. Há um gesto de programação. Uma tentativa de costura. 

No fim, a Filmicca me interessou por um motivo que talvez seja o melhor elogio possível: ela me devolveu a sensação antiga de que escolher um filme pode voltar a ser prazer, e não mineração. 

Escrevi uma série de virtudes visíveis mas devo dizer que ainda não a testei na prática, o que começarei a fazer em breve. Fiquei empolgado com a proposta, de que cinema não é apenas ter filme disponível; cinema é saber por que ele está ali.

Daqui a algum tempo volto aqui e digo se cumpriram. 🙂

Relacionados:

Comentários 0

Entre na conversa da comunidade

Os comentários não representam a opinião do Portal Tela; a responsabilidade é do autor da mensagem. Conecte-se para comentar

Veja Mais