A reportagem foi realizada durante um ano pelos jornalistas John Carreyrou e Dylan Freedman e combinou análise linguística computacional, registros históricos das listas de e-mail dos cypherpunks e um confronto direto com Adam Back, que negou seis vezes ser Nakamoto. A conclusão, no entanto, não é definitiva. O próprio jornal reconhece que as evidências são […]
A reportagem foi realizada durante um ano pelos jornalistas John Carreyrou e Dylan Freedman e combinou análise linguística computacional, registros históricos das listas de e-mail dos cypherpunks e um confronto direto com Adam Back, que negou seis vezes ser Nakamoto.
A conclusão, no entanto, não é definitiva. O próprio jornal reconhece que as evidências são circunstanciais. Ainda assim, o conjunto de pistas linguísticas, históricas e comportamentais forma, segundo a reportagem, a hipótese mais robusta já construída sobre a identidade de Satoshi.
O ponto de partida
A investigação começou de forma quase casual.
Em 2024, o repórter John Carreyrou ouviu, preso no trânsito, um podcast sobre um documentário que afirmava ter descoberto Satoshi. A tese não o convenceu, mas uma cena chamou sua atenção.
Nela, Adam Back reage de forma incomum ao ouvir seu nome entre os suspeitos: tensão visível, negativa imediata e um pedido para que a conversa não fosse registrada.
Para um repórter investigativo, não era prova, mas sim um sinal. A partir dali, Carreyrou decidiu reabrir um caso que há 17 anos resiste a jornalistas e especialistas.
O limite do mistério
Desde a publicação do white paper do Bitcoin, em 2008, Satoshi Nakamoto desapareceu.
Não há identidade confirmada. Nem registros verificáveis.
A única prova conclusiva seria o controle das chaves privadas associadas aos primeiros bitcoins, nunca movimentados. Todo o resto é inferência.
Foi nesse terreno que a investigação avançou.
Primeiras pistas
O primeiro movimento foi reduzir o universo de suspeitos.
Carreyrou partiu de duas pistas:
- Satoshi misturava inglês britânico e americano
- inseriu no primeiro bloco do Bitcoin uma manchete do jornal britânico The Times
A combinação sugeria que o criador do Bitcoin provavelmente era britânico.
Outro fator foi o contexto técnico: Satoshi demonstrava profundo conhecimento das discussões dos cypherpunks, grupo que, nos anos 1990, buscava criar dinheiro digital fora do controle estatal.
Seguir as palavras
A investigação então seguiu por um caminho menos óbvio: linguagem.
Carreyrou catalogou mais de cem palavras e expressões usadas por Satoshi e cruzou esse material com possíveis candidatos.
Um nome começou a aparecer com frequência: Adam Back.
Ideias anteriores ao Bitcoin
Um dos pilares da investigação está em textos publicados por Adam Back no fim dos anos 1990, nas listas de discussão dos cypherpunks, espaço onde criptógrafos e programadores debatiam como criar dinheiro digital fora do controle de governos e bancos.
Nessas mensagens, Back descreve conceitos que mais tarde se tornariam centrais no Bitcoin: uma moeda eletrônica independente, operando em rede descentralizada, com emissão limitada e validação baseada em esforço computacional, além de um registro público das transações.
Na prática, são os mesmos elementos que sustentam a arquitetura do sistema criado por Satoshi anos depois.
Back também desenvolveu o Hashcash, mecanismo de prova de trabalho que acabou servindo como base para o processo de mineração do Bitcoin.
Para o The New York Times, esse conjunto de ideias funciona como uma espécie de antecessor conceitual da criptomoeda — um modelo já delineado antes de sua implementação.
Coincidências que se acumulam
A investigação identificou paralelos adicionais entre Back e Satoshi:
- defesa da chamada “anarquia criptográfica”. Esse conceito defende que a criptografia pode permitir que pessoas interajam, troquem dinheiro e se comuniquem sem depender de governos, bancos ou qualquer autoridade central.
- críticas a sistemas centralizados;
- valorização de privacidade e redes distribuídas.
Há também semelhanças de formulação, inclusive comparações entre redes como Napster e Gnutella feitas em termos próximos.
Um padrão de comportamento
Outro elemento apontado pela reportagem é o timing.
Back foi altamente ativo nas discussões sobre dinheiro digital nos anos 1990 e início dos 2000.
Mas desapareceu dessas discussões quando o Bitcoin surgiu, em 2008, e voltou apenas em 2011, semanas após o desaparecimento de Satoshi.
34 mil usuários analisados
Para testar a hipótese, o jornal analisou mais de 34 mil usuários das listas cypherpunks.
Após filtros e critérios linguísticos, como grafia britânica, padrões de escrita e erros específicos, o número foi sendo reduzido progressivamente.
No final, apenas um nome preenchia todos os critérios: Adam Back.
Back negou ser Back mais de seis vezes
A etapa final foi direta. Carreyrou encontrou Back em um hotel em El Salvador e apresentou as evidências.
O criptógrafo negou ser Satoshi mais de seis vezes. Atribuiu as semelhanças a coincidências e não respondeu a todas as questões, incluindo pedidos sobre dados técnicos que poderiam esclarecer a origem de comunicações atribuídas a Nakamoto.
O que permanece em aberto
O próprio NYT reconhece: não há prova definitiva.
A estilometria, técnica de análise de escrita, foi inconclusiva. Outros nomes continuam plausíveis.
A única confirmação possível seria o controle das chaves privadas de Satoshi, que nunca foram usadas.
O mais perto de uma resposta
Ainda assim, a investigação muda o patamar da discussão.
Pela primeira vez em 17 anos, uma hipótese não se apoia apenas em coincidências isoladas, mas em um padrão consistente: histórico, linguístico e comportamental.
O mistério permanece.
Mas, após todo este tempo, a pergunta sobre quem criou o Bitcoin talvez nunca tenha estado tão perto de uma resposta.
Entre na conversa da comunidade