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Spotify faz 20 anos e entrega o jogo de comadres do streaming

A plataforma celebra seus 20 mais ouvidos como gosto do público. Mas os números revelam a real: 13 milhões já subiram música no player; só 1.500 artistas (ou 0,012%) passaram de US$ 1 milhão em 2025.

Artigo de opiniãoO dedo encosta no botão verde. A música começa. Parece escolha. Muitas vezes é só obediência com interface bonita. O streaming aprendeu a vender liberdade como prateleira infinita. Cabe tudo ali dentro: o moleque gravando no quarto, a banda que ainda paga ensaio, o compositor que manda link para amigos, a artista que […]

Artigo de opinião
O dedo encosta no botão verde. A música começa. Parece escolha. Muitas vezes é só obediência com interface bonita.

O streaming aprendeu a vender liberdade como prateleira infinita. Cabe tudo ali dentro: o moleque gravando no quarto, a banda que ainda paga ensaio, o compositor que manda link para amigos, a artista que cruza a cidade para tocar diante de 40 pessoas e, ao lado deles, o batalhão de sempre – catálogo bilionário, gravadora multinacional, departamento de marketing, playlist, campanha, algoritmo, capa bonita, dado proprietário e repetição até a exaustão. A vitrine parece democrática. A caixa registradora, nem tanto.

Vão dizer que a música nunca foi tão consumida. É verdade. Só costumam amputar o resto da frase: consumida como, empurrada por quem, medida por qual régua, monetizada por quais intermediários e paga, no fim, a quem.

Vão dizer que a música nunca esteve tão disponível. Também é verdade. O problema é que disponibilidade não é descoberta. Ter 100 milhões de faixas na prateleira não significa que alguém vá encontrar a sua. Significa apenas que a sua música agora divide o mesmo galpão com superestrela, ruído, catálogo antigo, faixa funcional, música para dormir, produto fabricado para entrar em playlist e obra feita por ninguém em especial. O excesso virou uma forma nova de invisibilidade.

Vão dizer ainda que o streaming matou o velho jabá, derrubou porteiros, abriu o mercado, libertou artistas das gravadoras e transformou o ouvinte em soberano. Bonito. Pena que a soberania do ouvinte, quando passa pela máquina, vem sempre escoltada: recomendação automática, destaque editorial, contrato de licenciamento, campanha global, pacote promocional, análise de comportamento, prioridade de catálogo. O empurrão continua existindo. Só ganhou nome técnico.

Daí a utilidade involuntária da comemoração de 20 anos do Spotify. Ao divulgar, com orgulho de retrospectiva corporativa, os artistas, álbuns e músicas mais tocados de sua história, a plataforma não mostrou apenas o que o mundo ouviu. Mostrou o desenho do funil.

Taylor Swift, Bad Bunny, Drake, The Weeknd, Ariana Grande, Ed Sheeran, Justin Bieber, Billie Eilish, Eminem, Kanye West. A lista tem gosto, claro. Tem talento, também. Seria burrice negar. Mas tem, acima de tudo, estrutura. E estrutura não toca guitarra. Estrutura decide quem aparece.

O próprio Spotify informa que seus rankings históricos consideram os streams globais acumulados até abril de 2026. Taylor Swift aparece como a artista mais ouvida da história da plataforma, seguida por Bad Bunny, Drake, The Weeknd e Ariana Grande. Entre os álbuns, lidera Un Verano Sin Ti, de Bad Bunny. Entre as músicas, “Blinding Lights”, de The Weeknd. A lista oficial é apresentada como memória coletiva da escuta global, “o que o mundo escolheu tocar”, na formulação da própria empresa.

A frase parece inocente. Não é.

Quando a plataforma que organiza a prateleira, recomenda as faixas, mede o consumo, remunera os direitos e controla o ambiente também anuncia o pódio da história, a pergunta incômoda não é quem venceu. É quem teve condições de disputar. A Associated Press notou um detalhe revelador: o Spotify não explicou a metodologia de coleta quando questionado sobre os rankings. Para uma empresa que transformou dados em poder, isso não é detalhe de rodapé. É sintoma.

O número que deveria ocupar o centro da festa é outro. Segundo o relatório Loud & Clear, o Spotify pagou mais de US$ 11 bilhões à indústria da música em 2025 e levou seu total histórico a quase US$ 70 bilhões. O dado parece uma vitória civilizatória do streaming. Mas a mesma prestação de contas informa que apenas 1.500 artistas geraram mais de US$ 1 milhão em royalties no ano e que os 80 maiores passaram de US$ 10 milhões cada um. Na outra ponta da pirâmide, o artista número 100.000 do ranking de ganhos fez pouco mais de US$ 7.300 em 2025.

A conta fica mais dura quando se abre o denominador. Cerca de 13 milhões de pessoas já subiram ao menos uma faixa ao Spotify. Segundo análise da Music Business Worldwide baseada nos dados do próprio Loud & Clear, 303.200 artistas geraram mais de US$ 1.000 em 2025; 81.100 passaram de US$ 10.000; 13.800 chegaram a US$ 100.000; 1.540 ultrapassaram US$ 1 milhão; 230 passaram de US$ 5 milhões; e 80 ficaram acima de US$ 10 milhões. A pirâmide não desapareceu. Foi polida.

Mesmo aceitando o recorte mais generoso da própria empresa — 250 mil artistas profissionais ou aspirantes profissionais —, os 1.500 que passaram de US$ 1 milhão representam algo em torno de 0,6% desse grupo. Contra os 13 milhões que já subiram música à plataforma, viram cerca de 0,012%. É menos uma classe média musical do que um condomínio fechado com portaria digital.

E aqui o jogo de comadres deixa de ser xingamento para virar hipótese de funcionamento. O Spotify precisa das majors para ter catálogo, escala e previsibilidade. As majors precisam do Spotify para transformar catálogo em fluxo permanente de receita. Universal, Sony e Warner continuam ocupando o centro nervoso da indústria. A Universal, maior gravadora do mundo, ainda carregava uma participação no Spotify avaliada em €2,7 bilhões, segundo reportagem do Guardian sobre a oferta de Bill Ackman pelo grupo em abril de 2026.

Sony e Warner venderam grandes fatias de suas ações no passado, mas isso não dissolveu a simbiose. Em 2025, Spotify fechou novos acordos com Universal, Warner e Sony, cobrindo gravações, publicação musical, licenças diretas e desenvolvimento de novos produtos. Não é conspiração. É contrato. O nome público é parceria. O efeito prático é dependência mútua entre poucos atores grandes demais.

Não é preciso imaginar uma sala enfumaçada onde executivos decidem o gosto do planeta com uísque e charuto. A logística é mais limpa, mais fria e mais difícil de fotografar. Ela passa por licenciamento, catálogo, playlist, prioridade editorial, dado, lançamento sincronizado, produto novo, pacote premium e, ufa, negociação global. Em outubro de 2025, o próprio Spotify anunciou colaboração com Sony Music Group, Universal Music Group, Warner Music Group, Merlin e Believe para desenvolver produtos de inteligência artificial “voltados aos artistas”. O futuro, pelo visto, também será negociado no mesmo balcão.

A lista dos 20 anos, portanto, não precisa ser lida como fraude. Seria confortável demais se fosse. Ela é pior: parece sincera. Mostra o resultado natural de um sistema que diz ter democratizado a música enquanto reorganizou a desigualdade em escala planetária.

O problema não é Taylor Swift tocar muito, Bad Bunny dominar o mundo latino ou The Weeknd transformar “Blinding Lights” em quilates algorítmicos. O problema é o restante da cena musical ser convidado a chamar de oportunidade aquilo que, para muitos, funciona como espera eterna na fila do lado de fora.

A democracia do streaming prometeu derrubar muros. Derrubou alguns, é verdade. Mas ergueu outros com vidro e assinatura mensal. Agora todos podem entrar. Quase ninguém chega ao salão principal.

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