A cozinha da minha casa tem piso quadriculado e tudo o que for possível em vermelho. A sala mistura terracota, madeira escura, guitarras, livros, discos, pôsteres, máquina de pinball e até uma bicicleta – uma Caloi Cross Extra Light (vermelha) – pendurada na parede. Tem gente que entra e acha demais. Nos dois sentidos. Eu […]
A cozinha da minha casa tem piso quadriculado e tudo o que for possível em vermelho. A sala mistura terracota, madeira escura, guitarras, livros, discos, pôsteres, máquina de pinball e até uma bicicleta – uma Caloi Cross Extra Light (vermelha) – pendurada na parede. Tem gente que entra e acha demais. Nos dois sentidos. Eu olho e penso exatamente o contrário: é essa a ideia. Um lugar que ainda parece vivo.
Faz uns bons anos que comecei a perceber essa tristeza cinza tomando conta do mundo.
No começo ela vinha disfarçada de sofisticação arquitetônica. Os prédios começaram a perder cor. O concreto aparente virou cool. O vidro fumê virou símbolo de modernidade. Depois vieram os interiores. A obsessão pelo bege. Pelo greige. Pelo off-white. Pelas cozinhas que parecem consultórios de dentista. Casas inteiras montadas como renderização de incorporadora. Ambientes sem nenhum vestígio humano. Sem memória. Sem bagunça cromática.
Aos poucos percebi que aquilo não era só decoração. Era sintoma.
Agora uma pesquisa do Science Museum Group, em Londres, que meu chefe me enviou como sugestão, praticamente materializa essa sensação. Usando visão computacional para analisar milhares de objetos produzidos ao longo de mais de dois séculos, os pesquisadores perceberam que o mundo ficou progressivamente mais cinza e mais retangular.
É uma frase impressionante: o mundo ficou mais cinza.
E pior: a gente quase não percebeu.
O estudo analisa objetos cotidianos do acervo do museu – telefones, câmeras, utensílios, aparelhos domésticos, instrumentos tecnológicos – e detecta uma migração cromática brutal ao longo do tempo. Marrons, amarelos, vermelhos, verdes e tons saturados foram desaparecendo. Cinzas, pretos, brancos e metálicos assumiram o controle.
Quando li isso, imediatamente pensei que venho observando essa mutação há décadas, mas de forma intuitiva. Meio física até.
Talvez ela tenha começado culturalmente ali na passagem dos anos 1980 para os 90.
Os anos 80 ainda eram excessivos. Cafonas às vezes. Mas vivos. O Memphis Design, movimento artístico e de design que caracterizou os 80, parecia ter sido criado sob efeito de açúcar industrial, cafeína e luminária neon. Carros tinham azul, vinho, verde-musgo, marrom metálico. Eletrodomésticos tinham personalidade. Capas de disco pareciam explodir. Mesmo o mau gosto era caloroso.
Então alguma coisa mudou.
Os anos 90 começaram a transformar sobriedade em valor moral. O minimalismo corporativo foi tomando o lugar da exuberância pop. O design começou a vender limpeza emocional. A Apple talvez tenha sido a grande sacerdotisa desse processo: superfícies brancas, alumínio escovado, transparências, silêncio visual, objetos sem textura humana.
O problema é que essa estética escapou dos objetos e contaminou a percepção inteira do mundo.
A moda ficou monocromática. Restaurantes começaram a parecer laboratórios escandinavos. Cafeterias trocaram o vermelho e o amarelo por cimento queimado, plantas estrategicamente tristes e tipografia sem serifa. O streaming achatou a fotografia audiovisual numa massa azul-acinzentada. Até filmes de super-herói parecem hoje iluminados por uma lâmpada vacilona de garagem subterrânea.
A música também entrou nisso.
Os anos 80 ainda aceitavam o ridículo. Sintetizadores berrando neon. Capas absurdas. Videoclipes histéricos. Os anos 90 começam a institucionalizar uma melancolia dessaturada que depois desemboca nessa música ambiente meio triste que parece tocar hoje em toda cafeteria de aeroporto, loja de sneakers e vídeo motivacional de LinkedIn.
Talvez o problema do bege seja esse: ele elimina atrito. Nada briga com nada. Nada pulsa. Tudo precisa coexistir educadamente dentro do mesmo feed.
O neutro não rejeita ninguém. Mas também não apaixona ninguém.
A pesquisa do museu sugere inclusive que parte dessa transformação vem dos materiais: a saída da madeira e a entrada massiva do plástico, do aço, do alumínio e dos acabamentos industriais. Mas seria confortável demais culpar apenas o aço escovado.
Desconfio que exista outra coisa aí.
Talvez a vida contemporânea tenha se tornado barulhenta demais nas telas e silenciosa demais fora delas. Talvez a avalanche permanente de informação tenha produzido essa vontade de anestesiar os ambientes físicos. Como se o mundo estivesse sendo lentamente esterilizado.
Só que existe um efeito colateral estranho nisso: o mundo começa a parecer permanentemente em luto.
Outro dia entrei num empreendimento novo – fachada, lobby, apartamento decorado, academia, coworking – absolutamente sem uma única cor viva. Parecia um centro cirúrgico. Fiquei pensando como uma criança cresce num ambiente assim. Que memória cromática ela constrói do mundo?
Porque cor também é memória.
A infância quase sempre tem cores saturadas. A vida adulta contemporânea parece um filtro desbotado.
Talvez por isso eu tenha transformado minha casa numa espécie de resistência silenciosa. Não como parque temático dos anos 80. Mas como recusa desse mundo que parece querer lixar todas as superfícies emocionais até elas perderem textura.
Gosto de madeira escura. Luz quente. Quadros demais. Livros aparentes. Objetos que envelhecem e outros já envelhecidos. Vermelho. Verde. Azul profundo. Amarelo queimado. Cores que parecem habitadas por gente.
Hoje percebo que isso talvez seja menos decoração e mais posicionamento existencial.
Uma tentativa meio teimosa de continuar acreditando que o mundo ainda pode ser quente.
Porque existe algo meio assustador nessa marcha civilizatória rumo ao bege absoluto.
Tem apartamento hoje que parece já nascer pronto para ser desocupado.
Tudo é bonito.
Nada parece habitado.
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