A violência contra a mulher passou a ocupar um lugar inédito no imaginário da população brasileira: pela primeira vez, a maioria dos brasileiros considera as agressões de gênero o crime mais grave do país, acima do tráfico de drogas, dos assaltos armados e de outras formas tradicionais de criminalidade. Os dados fazem parte de uma […]
A violência contra a mulher passou a ocupar um lugar inédito no imaginário da população brasileira: pela primeira vez, a maioria dos brasileiros considera as agressões de gênero o crime mais grave do país, acima do tráfico de drogas, dos assaltos armados e de outras formas tradicionais de criminalidade.
Os dados fazem parte de uma pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (1º), encomendada pelo Movimento Mulher 360. O levantamento mostra que 61% da população apontam a violência contra mulheres como o principal problema criminal do Brasil atualmente. O índice deixa muito atrás crimes historicamente associados à sensação de insegurança no país, como o tráfico de drogas (16%) e os assaltos à mão armada (10%).
O resultado expõe uma mudança importante na percepção social brasileira. A violência doméstica e os ataques contra mulheres deixaram de ser vistos apenas como conflitos privados e passaram a ocupar o centro do debate público sobre segurança.
Etapas anteriores à violência são normalizadas
Ao mesmo tempo, a própria pesquisa revela uma contradição preocupante: embora a maioria da população reconheça a gravidade das agressões físicas, comportamentos considerados etapas anteriores da violência ainda seguem normalizados no país.
Na avaliação de especialistas, o levantamento escancara como o Brasil ainda reconhece mais facilmente a violência quando ela já chegou ao estágio extremo.
A diretora-executiva do Movimento Mulher 360, Margareth Goldenberg, afirma que o problema começa justamente antes da agressão física.
“Raramente o crime começa com uma agressão física. Sem o reconhecimento disso, a prevenção pode chegar tarde para a mulher violentada”, afirmou.
Os números ajudam a explicar por que tantas vítimas permanecem durante anos em relações abusivas sem perceber inicialmente a dimensão da violência sofrida.
A pesquisa mostra ainda que 89% dos brasileiros acreditam que os casos de violência contra mulheres aumentaram no último ano. Entre as mulheres, essa percepção sobe para 94%. Além disso, 71% dos entrevistados afirmam acreditar que hoje as mulheres correm mais risco dentro de casa do que nas ruas.
Os dados dialogam diretamente com os registros oficiais. Segundo informações do Ministério da Justiça citadas no levantamento, os casos de feminicídio cresceram 7,5% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado.
Outro dado que chama atenção é a dimensão dos maus-tratos já vividos pelas mulheres brasileiras.
74% das mulheres já sofreu algum episódio de maus-tratos e humilhações na vida
Entre as entrevistadas, 74% afirmaram já ter sofrido ao menos um episódio ao longo da vida. Xingamentos, humilhações e insultos aparecem como os casos mais comuns, seguidos por ameaças, empurrões, intimidações e perseguições.
Os relatos de violência sexual também aparecem em números expressivos: 38% disseram já ter sido tocadas ou agarradas sem consentimento. Uma em cada quatro afirmou já ter sido espancada ou vítima de tentativa de enforcamento.
Apesar da gravidade dos casos, o silêncio ainda é frequente.
Segundo o levantamento, 37% das mulheres que sofreram agressões mais graves no último ano disseram não ter tomado qualquer atitude após o episódio. A pesquisa aponta que a baixa confiança nas instituições ajuda a explicar esse comportamento: apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las.
A culpabilização das vítimas também segue fortemente presente no país.
Seis em cada dez brasileiros concordam com a ideia de que muitas agressões acontecem por “escolhas erradas” feitas pelas mulheres ao escolher um parceiro. O entendimento aparece inclusive entre parte significativa das próprias mulheres entrevistadas.
O levantamento ouviu 2.004 pessoas em capitais e regiões metropolitanas de todas as regiões do Brasil entre os dias 6 e 11 de abril de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
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