O Peru amanheceu nesta quarta-feira (10) sem saber quem será seu próximo presidente. Três dias após o segundo turno, a diferença entre os dois candidatos continua mínima e insuficiente para encerrar a disputa. Com cerca de 97% das urnas apuradas, Roberto Sánchez, da coalizão de esquerda “Juntos pelo Peru”, lidera a corrida presidencial com pouco […]
O Peru amanheceu nesta quarta-feira (10) sem saber quem será seu próximo presidente. Três dias após o segundo turno, a diferença entre os dois candidatos continua mínima e insuficiente para encerrar a disputa.
Com cerca de 97% das urnas apuradas, Roberto Sánchez, da coalizão de esquerda “Juntos pelo Peru”, lidera a corrida presidencial com pouco menos de 27 mil votos de vantagem sobre Keiko Fujimori, do partido conservador Força Popular. Em termos percentuais, a distância é inferior a 0,1% dos votos válidos.
A margem é tão estreita que milhares de votos ainda pendentes de validação podem alterar o resultado final. Por isso, o Jurado Nacional de Eleições (JNE), órgão equivalente à Justiça Eleitoral brasileira, já admite que a proclamação oficial do vencedor poderá ocorrer apenas em meados de julho.
Resultado aguarda contagem de votos no exterior e em regiões remotas do interior
O resultado apertado reflete uma divisão política e social que há anos marca o país.
De um lado, Sánchez conquistou forte apoio nas regiões rurais, andinas e historicamente mais pobres do interior peruano. Seu discurso tem como foco a ampliação da presença do Estado, o combate às desigualdades sociais e a revisão de políticas econômicas que, segundo seus apoiadores, beneficiaram principalmente as elites urbanas.
Do outro, Keiko Fujimori obteve melhor desempenho em Lima, principal centro econômico do país, e entre setores empresariais, conservadores e eleitores preocupados com estabilidade econômica e segurança pública.
A geografia do voto ajuda a explicar por que a disputa continua aberta. Enquanto parte dos votos que ainda precisam ser contabilizados vem do exterior e tende a favorecer Keiko, também restam votos de regiões remotas do interior, onde Sánchez costuma ter desempenho superior.
Quem é Roberto Sánchez?
Roberto Sánchez, de 56 anos, é engenheiro, professor universitário e ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo. Filiado ao Juntos pelo Peru, ele construiu sua campanha defendendo maior intervenção estatal na economia, fortalecimento de programas sociais e políticas voltadas à redução das desigualdades.
Durante a campanha, apresentou-se como representante dos setores populares e das regiões historicamente negligenciadas pelo poder central em Lima. Também buscou se diferenciar de movimentos mais radicais da esquerda latino-americana, afirmando que pretende respeitar as instituições democráticas e a estabilidade econômica do país.
Seu crescimento eleitoral foi impulsionado principalmente entre trabalhadores rurais, sindicatos e eleitores que demonstram insatisfação com a classe política tradicional peruana.

Quem é Keiko Fujimori?
Keiko Fujimori, de 51 anos, é uma das figuras mais conhecidas da política peruana. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000, ela disputa a Presidência pela quarta vez.
Líder do partido Força Popular, Keiko defende políticas econômicas liberais, fortalecimento do setor privado e medidas mais duras contra a criminalidade, tema que se tornou uma das principais preocupações dos peruanos nos últimos anos.
Sua trajetória política é marcada tanto por uma base eleitoral fiel quanto por forte rejeição. Para apoiadores, ela representa experiência e estabilidade. Para críticos, carrega o peso das controvérsias associadas ao fujimorismo, movimento político que ainda divide profundamente a sociedade peruana.

Por que a apuração está demorando?
O principal motivo é a existência das chamadas “atas observadas”.
As atas eleitorais são os documentos que registram toda a movimentação de cada mesa de votação. Quando apresentam erros, inconsistências ou informações incompletas, deixam de ser contabilizadas imediatamente e passam por um processo de revisão.
Atualmente, cerca de 1.500 atas permanecem nessa situação.
Em uma eleição decidida por poucos milhares de votos, cada uma delas ganha importância estratégica.
Além disso, o material eleitoral de algumas regiões isoladas e de consulados no exterior ainda está sendo encaminhado aos órgãos responsáveis pela apuração. Problemas climáticos e dificuldades logísticas atrasaram parte desse processo.
O que pode mudar o resultado?
Além das atas observadas, a legislação peruana permite recursos e pedidos de recontagem em situações específicas.
A recontagem ocorre quando existem divergências relevantes entre os registros oficiais e os votos depositados nas urnas. Nesses casos, as cédulas físicas são novamente analisadas por autoridades eleitorais em sessões públicas.
Embora não existam denúncias robustas de fraude por parte dos candidatos, especialistas avaliam que o grande desafio será garantir transparência e confiança em um resultado que provavelmente será definido por uma diferença mínima.
O que acontece agora?
Nas próximas semanas, a Justiça Eleitoral continuará analisando atas observadas, recursos partidários e eventuais pedidos de recontagem.
Somente após a conclusão de todos esses procedimentos será possível proclamar oficialmente o vencedor.
Até lá, o Peru permanece em compasso de espera, acompanhando uma disputa que expõe não apenas a divisão política do país, mas também a dificuldade de construir consensos em uma das democracias mais instáveis da América Latina. Em um cenário tão apertado, cada voto ainda pode fazer a diferença.
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