- O abastecimento de combustíveis no Brasil depende de uma ampla malha de infraestrutura, logística e gestão de risco, com gargalos regionais que afetam a regularidade e a qualidade do produto.
- O tema envolve aumento da criminalidade no setor, com sonegação fiscal e adulteração, o que reduz a qualidade, eleva custos e afeta a arrecadação e a concorrência.
- Gargalos regionais ampliam desigualdades: áreas distantes dos centros produtores têm custo maior de abastecimento e maior vulnerabilidade a fluxos criminosos.
- Investimento em infraestrutura está abaixo do necessário: previsão de 2,1% a 2,2% do PIB em 2026, frente a cerca de 4,6% do PIB por ano por duas décadas para universalizar e modernizar a infraestrutura.
- O setor privado terá papel decisivo no financiamento: cerca de dois terços dos investimentos já vêm da iniciativa privada, com necessidade de segurança jurídica e planejamento de longo prazo para ampliar concessões e melhorar a logística entre modais (portos, cabotagem, hidrovias, rodovias e ferrovias).
O abastecimento de combustíveis no Brasil depende de uma rede complexa de infraestrutura, logística e gestão de riscos para atender um país de dimensões continentais. Em entrevista ao BM&C Talks, o economista Claudio Frischtak, sócio fundador da InterB Consultoria, destacou que a distribuição regular e de qualidade resulta de décadas de construção, mas ainda enfrenta gargalos regionais e riscos crescentes.
A conversa apontou que a diversidade territorial dificulta levar combustíveis a áreas distantes dos principais polos produtores e consumidores. Apesar de avanços na integração do sistema, o expert enfatizou a necessidade de ampliar investimentos e melhorar a coordenação para reduzir custos e elevar a previsibilidade na última milha.
Criminalidade e competição desigual
Frischtak afirmou que há avanço da criminalidade no setor, com práticas como sonegação e adulteração que distorcem a concorrência, prejudicam a qualidade do produto e comprometem motores e transporte. O tema exige resposta institucional ampla, além da fiscalização tradicional.
O economista afirmou que o enfrentamento não pode ficar apenas nas forças policiais ou na fiscalização tributária. É preciso um conjunto de ações regulatórias, uso de inteligência e coordenação entre órgãos para reduzir incentivos a ilegalidades.
Gargalos regionais e desigualdades
A dificuldade de chegar a regiões remotas eleva custos e reduz a competitividade de municípios afastados. A presença de grupos criminosos, incerteza no abastecimento e infraestrutura deficiente agravam esse cenário, segundo Frischtak.
A Amazônia Legal foi citada como exemplo onde a presença de facções aumenta obstáculos à economia formal, elevando o custo dos combustíveis e pressionando governos locais a buscar investimentos e integração produtiva.
Investimento em infraestrutura
Para reduzir gargalos, Frischtak disse que o Brasil precisa ampliar o investimento em infraestrutura. A projeção de 2026 aponta entre 2,1% e 2,2% do PIB em transportes, energia, telecomunicações e saneamento, valor ainda abaixo do necessário.
O economista ressaltou que seriam cerca de 4,6% do PIB por ano, por duas décadas, para universalizar e modernizar a infraestrutura. A diferença entre cenário atual e ideal representa déficit que afeta competitividade e inclusão regional.
Papel do setor privado
A expansão depende, em grande parte, do setor privado. Hoje, aproximadamente dois terços do investimento em infraestrutura vem da iniciativa privada, com o público respondendo por cerca de um terço. A limitação fiscal pública demanda maior participação privada com segurança jurídica e planejamento.
Frischtak lembrou que o setor público está próximo do limite sob as regras fiscais atuais, destacando a necessidade de uma agenda capaz de ampliar o financiamento privado em projetos com boa regulação.
Portos, cabotagem e hidrovias
O diagnóstico aponta avanço relevante em portos e cabotagem, impulsionados por mudanças regulatórias e concessões. Ainda assim, as hidrovias recebem menos progresso, mesmo com alto potencial de logística eficiente e custos menores.
Segundo o economista, a cabotagem tem papel importante no transporte de combustível, mas exige planejamento institucional e estruturação de projetos para ampliar seu impacto.
Integração de modais como prioridade
A integração entre modais continua sendo chave para eficiência logística, com rodovias ainda fundamentais para o escoamento. Frischtak destacou a necessidade de ampliar concessões e atrair capital privado para melhorar a malha existente, além de priorizar projetos ferroviários com critérios rigorosos de viabilização.
No âmbito externo, o especialista citousecurity energética como tema relevante, reconhecendo avanços na produção de petróleo e em alternativas como etanol, mas reiterando que a logística interna é decisiva para reduzir custos e aumentar a previsibilidade do abastecimento.
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