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A agenda inacabada da conservação

Conservação precisa reconhecer desigualdades históricas que moldam quem decide, quem participa e quem suporta custos na proteção de terras

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Por Revisado por: Time de Jornalismo Portal Tela
Product of the women's keeping initiative. Photo credit: Felipe Rodriguez
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  • Um artigo da Nature argumenta que a conservação vai além de números: é moldada por raça, poder e exclusão histórica, influenciando quem detém autoridade, custos e definição de sucesso.
  • As raízes remontam ao século dezenove, quando áreas protegidas foram criadas com remoções forçadas, marginalizando povos indígenas e comunidades rurais em nome de uma natureza “pristina”.
  • Mesmo com mudanças, padrões antigos persistem como “dependências de caminho”, privilegiando saberes externos e controle centralizado.
  • O texto analisa a meta de proteger trinta por cento do planeta até 2030: o ideal pode ampliar a participação de territórios administrados por povos e comunidades, desde que haja reconhecimento de direitos tradicionais; caso contrário, pode reproduzir injustiças.
  • Propõe o framework RACE — Direitos, Agência, Desafio e Educação — para avaliar práticas de conservação, defendendo que resultados fortes vêm quando comunidades próximas à terra têm real poder e participação decisionária.

Conservationists enfrentam uma crítica fundamental ao modo como a prática é entendida hoje. Um estudo recente na Nature afirma que a visão técnico-empírica, centrada em áreas protegidas e métricas ecológicas, deixa de considerar como raça, poder e exclusão histórica moldam a conservação atualmente.

O texto, assinado por Moreangels Mbizah, da Wildlife Conservation Action, em Harare, parte de uma perspectiva histórica. Sustenta que o conservationismo nasceu em contextos coloniais, tratando terras como vazias e comunidades como obstáculos, padrões que persistem de forma sutil.

Segundo a pesquisa, esses legados influenciam quem tem voz, quem arca com custos e o que é considerado sucesso. O conceito de “path dependencies” aponta para práticas que privilegiam saberes externos e controle centralizado, ainda que de forma menos explícita hoje.

O estudo enfatiza a marginalização de povos indígenas e comunidades locais, especialmente no Sul Global. Tais grupos são frequentemente descritos como “stakeholders” em vez de detentores de direitos sobre suas terras, o que revela assimetrias de poder.

Mesmo com boas intenções, projetos podem reproduzir hierarquias antigas se a consulta vier apenas após as prioridades definidas ou se a participação se limitar à implementação, sem decisão.

A análise destaca o esforço global de ampliar áreas protegidas para 30% do planeta até 2030. A meta pode favorecer abordagens plurais, como territórios geridos por povos indígenas, mas pode falhar sem mecanismos legais que reconheçam direitos tradicionais.

Nesse contexto, a conservação nem sempre é apenas uma questão ambiental. Quando direitos humanos são secundários, o sucesso ecológico pode ter custos sociais elevados, segundo os autores.

Outra linha de pensamento aponta como as narrativas de conservação valorizam animais em detrimento de pessoas que convivem com a vida silvestre. Conflitos locais aparecem com menos visibilidade do que ferimentos a animais carismáticos, gerando desigualdades perceptíveis.

O estudo não enquadra as dinâmicas de forma estritamente racial, mas destaca intersecções entre raça, classe, geografia e poder político. Autoridades urbanas de países de baixa renda podem reproduzir assimetrias globais, mirroring o Norte-Sul.

A proposta central é o framework RACE: Rights, Agency, Challenge e Education. Não é uma lista de verificação, mas uma lente para que organizações, pesquisadores e financiadores avaliem práticas internas.

Direitos são o eixo, segundo o texto: conservar não é sustentável se viola direitos básicos a terras, cultura e autodeterminação. Agência vem a seguir: comunidades precisam ter poder real de decisão, não apenas papel consultivo.

Desafios envolvem instituições poderosas assumirem posição pública diante de danos ou exclusões geradas pela conservação. Educação demanda enfrentar a própria história e reconhecer saberes não ocidentais.

Os autores ressaltam que o objetivo não é causar culpa, mas evitar repetição de erros sob novas formas. A ideia é fortalecer a relação entre habitantes locais e a natureza, reconhecendo a agência das comunidades.

Há também um aspecto pragmático: a conservação opera em um cenário político fragmentado, com cortes de financiamento e desconfiança de instituições internacionais. Legitimidade local reduz riscos de conflitos.

A pesquisa admite que mudanças não serão fáceis. O acúmulo de poder raramente é cedido voluntariamente, e a conservação não resolve injustiças sociais amplas sozinha. O foco é encarar a desigualdade como parte intrínseca da prática.

Em resumo, o estudo defende que a conservação precisa tratar relações como núcleo central. Ignorar essas relações apenas adia seus impactos para quem tem menos capacidade de absorvê-los.

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