- Em Iñapari, município da Amazônia peruana, fazendeiros estão substituindo pastagens de monocultura por pastagens arborizadas com árvores nativas, buscando melhor biodiversidade.
- O fazendeiro Antonio Cardozo plantou centenas de árvores e, com pastejo rotativo, viu a área de manejo melhorar a dieta e a saúde das vacas, além de aumentar fontes de alimento e renda.
- Silvopastorismo, prática agroflorestal, pode sequestrar carbono, fornecer sombra a bovinos e aumentar a produtividade, ajudando produtores a enfrentar eventos climáticos extremos.
- Peru incorporou a técnica ao Plano Nacional de Desenvolvimento Pecuário e à contribuição nacional (NDC) de clima, com meta de converter centenas de milhares de hectares degradados na Amazônia em silvopastoril até 2030.
- Desafios: custo inicial alto, necessidade de capacitação técnica e incentivos financeiros; especialistas alertam para dependência de condições locais e risco de não adoção sistêmica se não houver retorno econômico.
Nos garimpos de Iñapari, município da Amazônia peruana na trípoleira com Bolívia e Brasil, pecuaristas migraram de monocultivos de pastagens para pastagens florestadas. A prática, chamada silvopastoril, combina árvores nativas com o manejo rotativo de pastagens para manter o solo e favorecer a regeração de gramíneas. O objetivo é melhorar a alimentação e a saúde do rebanho, além de abrir novas fontes de renda.
Em uma propriedade comandada pelo pecuarista local Antonio Cardozo, centenas de árvores nativas foram plantadas. A adoção do sistema elevou a qualidade do pasto, a produtividade por hectare e a resiliência do lote diante de variações climáticas. Cardozo destaca ganhos em alimentação, sombra para o gado e andamento de negócios paralelos, como piscicultura e cultivo de pequenos alimentos.
Panorama e evidências
Pesquisas indicam que a criação de sistemas silvopastoris pode aumentar a produção de forragem, melhorar a fertilidade do solo e reduzir emissões por animal, em condições adequadas. Em regiões tropicais, esses sistemas mostram potencial para aliar produção de carne a benefícios ambientais, desde que aplicados com critérios técnicos e financeiros.
No âmbito regional, países da América Latina vêm incorporando silvopasto a políticas públicas, incluindo planos nacionais de desenvolvimento pecuário e compromissos climáticos. No Peru, a técnica passou a integrar o Plano Nacional de Desenvolvimento Pecuário e a contribuição nacionalmente determinada (NDC), com metas de recuperação de áreas degradadas na Amazônia até 2030.
Condições para credibilidade
Especialistas ressaltam que o sucesso depende de incentivos econômicos, apoio técnico e disponibilidade de crédito acessível. Investimentos iniciais elevados e o tempo necessário para retorno financeiro costumam frear a adesão de produtores menores. Sem apoio financeiro, a adoção tende a permanecer limitada.
Pesquisadores observam que políticas públicas devem acompanhar resultados práticos; caso contrário, corre-se o risco de falhas na implementação ou de deslocamento de investimentos para outras atividades mais lucrativas no curto prazo. Ainda assim, há evidências de que a silvicultura em pastagens pode melhorar a produtividade sem ampliar a área de cultivo.
Desafios de implementação
A viabilidade econômica é central: mesmo com aumentos de eficiência, o retorno pode demorar anos, e instituições financeiras costumam apresentar condições altas de juros para produtores rurais. Ações de financiamento de serviços ecossistêmicos e benefícios fiscais são apontadas como fundamentais para ampliar a adoção do método.
Pesquisadores apontam que a decisão de adotar silvopastoril envolve fatores macro, como políticas públicas, condições de mercado e disponibilidade de insumos, além da própria experiência dos produtores. Para o avanço, a participação de proprietários rurais, com autonomia para decidir espécies utilizadas, é considerada essencial.
Perspectivas futuras
Estudos internacionais destacam o silvopasto como uma opção entre várias estratégias para reduzir emissões e ampliar a resiliência agropecuária. O desafio é equilibrar ganhos ambientais com a demanda por carne e laticínios, além de assegurar que a gestão do território não leve a novos desmatamentos.
Especialistas comentam que, embora haja espaço para a prática, o caminho não substitui a necessidade de mudanças no consumo e na produção de alimentos de origem vegetal. A incorporação de árvores em pastagens pode, em certos contextos, contribuir para a conservação de rios, corredores de fauna e qualidade do solo.
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