- Dados do Mapa Autismo Brasil indicam que 33% das mulheres são diagnosticadas apenas após os 20 anos, enquanto entre os homens esse percentual é de 9%.
- Na infância, 61,6% dos meninos recebem diagnóstico entre 0 e 4 anos, contra 37,2% das meninas.
- A diferença decorre de fatores biológicos, mas principalmente de critérios diagnósticos historicamente baseados em padrões masculinos, além da camuflagem social (masking) pelas mulheres.
- Diagnósticos equivocados são comuns, como ansiedade generalizada, depressão, transtorno de personalidade borderline e bipolar, antes de reconhecer o TEA.
- O diagnóstico na vida adulta pode reorganizar o cuidado, com foco em regulação emocional, adaptação sensorial e desenvolvimento de habilidades sociais, ampliando o acesso a avaliações especializadas.
O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda chega de forma desigual entre homens e mulheres no Brasil. Dados do Mapa Autismo Brasil indicam que 33% das mulheres recebem o diagnóstico apenas após os 20 anos, contra 9% dos homens. Na infância, o cenário é o oposto: 61,6% dos meninos são diagnosticados entre 0 e 4 anos, comparados a 37,2% das meninas.
A diferença não se explica apenas por fatores biológicos. Limitações históricas nos critérios diagnósticos, construídos com base em padrões masculinos, dificultam a identificação do autismo em mulheres. Sinais menos evidentes e mais adaptativos ao ambiente social aparecem com mais frequência.
Na prática clínica, o descompasso resulta em trajetórias de sofrimento psíquico sem explicação clara. Muitas mulheres chegam à vida adulta com histórico de ansiedade, depressão ou exaustão crônica, sem que o transtorno de base tenha sido identificado.
Camuflagem social e atrasos
Para o médico Rafael Matias, a camuflagem social é um dos principais fatores do atraso. Mulheres com TEA costumam imitar padrões de comunicação, ensaiar interações e suprimir comportamentos espontâneos, mascarando sinais importantes, especialmente na infância.
Esse fenômeno, conhecido como maskin g, exige adaptação constante a padrões neurotípicos. Embora favoreça a inserção social, o custo psíquico é alto e pode levar a esgotamento emocional.
“Essa adaptação não implica ausência de dificuldade, mas é uma compensação. Ao longo do tempo, o esforço repetido pode provocar ansiedade e sensação de inadequação”, ressalta o especialista.
Fenótipo feminino e diagnósticos equivocados
A literatura aponta um fenótipo feminino com características menos visíveis aos modelos tradicionais. Interesses socialmente aceitos podem existir com hiperfoco e intensidade, dificultando a percepção de déficits na interação.
A comunicação pode depender mais de imitação, o que leva à leitura de mulheres como tímidas ou introspectivas sem investigação aprofundada. O resultado costuma ser diagnóstico equivocado.
Diagnósticos como ansiedade generalizada, depressão, transtorno de personalidade borderline e, em alguns casos, transtorno bipolar aparecem antes do reconhecimento do TEA, prejudicando a condução terapêutica.
Impactos do diagnóstico tardio
O atraso afeta vida social, profissional e emocional. Dificuldades de comunicação não compreendidas no espectro influenciam vínculos e oportunidades de desenvolvimento, com reflexos na autoestima e no senso de pertencimento.
Segundo o Mapa Autismo Brasil, o impacto é mais evidente na construção de relações e na trajetória profissional. O prejuízo pode se estender à percepção de si e ao engajamento social.
Quando o TEA é diagnosticado na vida adulta, abre-se espaço para reorganizar cuidados. O foco passa a ser regulação emocional, adaptação sensorial e habilidades sociais de forma funcional, indo além da compensação.
Caminhos para o cuidado e diagnóstico
Especializações em adultos ganham relevância, com instrumentos mais sensíveis às manifestações do autismo em mulheres. A atualização de critérios diagnósticos e a ampliação do olhar clínico aparecem como passos essenciais.
A ampliação do acesso ao cuidado depende de formação de profissionais e de políticas de saúde que promovam avaliações mais precisas. A partir do diagnóstico, há possibilidade de intervenções que dialoguem com as necessidades individuais.
Por Bruna Lima
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