- Em 2025, apreensões de gibon falam de um recorde: 336 gibões isolados entre janeiro e agosto, representando cerca de 20% de todos os registros desde 2016, segundo a rede TRAFFIC.
- A maior parte do comércio ocorre de forma doméstica, com apenas 29 casos envolvendo contrabando internacional; Índia e Malásia emergem como pontos-chave, junto de Indonésia e Vietnã.
- Motivações variam por região: em alguns lugares, gibbões são vistos como símbolos de status; em outros, a demanda chega por redes locais ou online, ligadas a coleções privadas e zoos.
- Muitos casos envolvem animais criados previamente como animais de estimação; no Sri Lanka e na Índia, por exemplo, há casos de apreensões ligadas a redes de venda online e coleções privadas.
- Iniciativas de redução da demanda, educação pública e campanhas online já ajudam, mas especialistas dizem que é preciso entender quem compra e por quê para desencadear mudanças duradouras.
Esther viu Joy pela primeira vez quando um caçador levou a aldeia na Sabah, na ilha de Borneo, para vender carne de vida silvestre. O animal era pequeno, com longos braços e olhos grandes. Ela o levou para casa com medo de que fosse morto para consumo.
Só depois percebeu que Joy não era um macaco, mas um gibão. Os gibões são primatas menores, mais próximos de humanos e chimpanzés do que de macacos. O comércio ilegal de animais silvestres alimenta a demanda por pets exóticos em várias regiões da Ásia.
A comercialização de gibões cresceu para registros de trafficking em 2025, com 336 gibões apreendidos entre janeiro e agosto, equivalente a cerca de 20% do total desde 2016, segundo avaliação da rede TRAFFIC. A captura de filhotes costuma dizimar famílias inteiras, pois gibões defendem os filhotes com afinco.
Entre 2016 e agosto de 2025, mais de 200 apreensões foram registradas, mas a organização aponta que o comércio real é provavelmente muito maior. Indonésia e Vietnã foram historicamente relevantes, mas Índia e Malásia ganharam importância recente. A maioria ocorre no âmbito doméstico, com apenas 29 casos envolvendo tráfico internacional.
O que atrai compradores? A curiosidade por primatas persiste, especialmente pela singularidade dos gibões, segundo especialistas. Aproximadamente um quarto dos casos analisados envolveram entregas voluntárias dos tutores, indicando desconhecimento sobre os impactos do manejo desses animais.
Na Gibbon Conservation Society, que cuida de centros de recuperação em Sabah e na Malásia Peninsular, quarenta gibões resgatados recentemente foram entregues pelos próprios donos. Os perfis variam, mas costumam ter maior renda e adquiridos por redes informais ou pela internet. Entre eles, dois foram comprados para carne.
Em Meghalaya, Índia, o panorama é distinto: cerca de 90% dos gibões acolhidos desde 2009 chegam por meio de confiscos. A organização HURO Foundation aponta demanda local e um mercado urbano de alto valor como impulsos que conectam redes locais a redes maiores de comércio.
Em alguns casos, gibões são vistos como símbolos de status, o que favorece a demanda entre colecionadores ricos. Além disso, zoológicos privados e coleções de elites indianas aparecem associados a casos envolvendo primatas raros, ampliando redes de comércio doméstico e internacional.
No ambiente online, influenciadores e conteúdos de redes sociais ajudam a romanticizar a posse de gibões, enquanto crenças culturais antigas ficam mais vulneráveis. Em algumas regiões, tradições locais que classificavam a posse de gibões como inadequada vão cedendo espaço a novas práticas de consumo.
Especialistas destacam que reduzir a demanda é essencial para enfrentar o tráfico. Porém, o efeito depende do motivo do interesse em gibões. Em alguns lugares, campanhas de informação bastariam; em outros, mudanças de norma social são necessárias para frear a prática.
A educação pública é uma das frentes promovidas pela Gibbon Conservation Society, que também atuou para desmontar contas de venda de animais exóticos nas redes sociais da Malásia. A organização cita iniciativas como a Gibbonesia, na Indonésia, que combinam ações online e presenciais para mudar atitudes, reforçando a mensagem de manter os gibões na natureza.
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