- Pesquisa qualitativa em cinco capitais brasileiras (São Paulo, Belém, Fortaleza, Porto Alegre e Goiânia) com recorte socioeconômico, na primeira etapa do projeto do Pacto Contra a Fome.
- Conclusão: a decisão de comer bem depende da rotina, tempo disponível, orçamento, endurecimento emocional, planejamento de compras e manejo da alimentação, não apenas do conhecimento.
- Alimentação saudável é associada a comida caseira, fresca e variada; alimentos ultraprocessados aparecem como opção prática e mais barata, especialmente entre famílias de menor renda.
- Dinâmica do “carrinho de compras” revela que orçamento menor prioriza proteína acessível e itens que rendem; orçamento maior amplia variedade, incluindo itens mais caros e “mimos”.
- Desigualdades econômicas moldam o prato e a gestão alimentar fica, em muitos casos, nas mãos de mulheres; políticas públicas devem reduzir preços e facilitar acesso, valorizando ambiente escolar e produção da agricultura familiar.
Manter uma alimentação adequada no Brasil envolve mais do que escolher o que é saudável. A decisão de incluir frutas, verduras e legumes depende de uma negociação diária dentro das famílias, entre tempo disponível, orçamento, atratividade e praticidade. A rotina de trabalho e longos deslocamentos amplificam esse desafio.
O estudo em estágio inicial, realizado pelo Instituto Pensi e financiado pela Fundação José Luiz Setúbal, mapeou percepções, barreiras e facilitadores da alimentação saudável em cinco capitais. O objetivo é entender o custo social da alimentação e como ele afeta escolhas nutricionais no dia a dia.
O que essa pesquisa aponta é que a saúde alimentar depende de fatores além da informação. A gestão das preferências alimentares, o planejamento da compra e o preparo constroem uma base que convive com o cansaço e a demanda por facilidade. Esse conjunto cria obstáculos para o consumo regular de comida saudável.
Percepção de alimentos saudáveis
Entre os participantes, há consenso de que alimentação saudável envolve comida caseira, fresca e variada, com frutas, verduras, legumes e proteínas magras. Itens ultraprocessados são vistos como convenientes, mas menos saudáveis, especialmente para quem tem menos tempo e renda.
A visão sobre rótulos é ambígua: entender termos como ultraprocessados, fit, integral ou light varia conforme a pessoa, o que dificulta a leitura de informações nutricionais. A busca por clareza ainda não é prática dominante para muitos consumidores.
A equipe aponta que apenas fornecer conhecimento não resolve a equação. Intervenções efetivas precisam combinar regulação do ambiente alimentar com facilidades para a escolha do saudável, incluindo apoio em escolas e na agricultura familiar para garantir variedade regional.
Orçamento, tempo e escolhas
Durante a pesquisa, os participantes realizaram um exercício de “carrinho de compras” com orçamentos diferentes. Com recursos menores, a base alimentar priorizava proteínas acessíveis e itens que rendem. Ovos, frango, bananas e mamão apareciam com frequência, junto de arroz e feijão para sustentar o mês.
Ao dobrar o orçamento, houve ampliação da variedade e qualidade, com carnes, mais frutas e itens que agilizam a cozinha. Em contrapartida, surgiram itens de “mimo”, como doces e refrigerante, integrando o carrinho.
O custo continua central na decisão, especialmente com renda reduzida. A redução de renda não leva automaticamente ao abandono da alimentação saudável; as substituições e cortes em itens supérfluos ajudam a chegar ao essencial no fim do mês.
Desigualdades e papel das mulheres
Diferenças de renda, estabilidade econômica e tipo de trabalho moldam estratégias alimentares. Famílias de maior renda costumam planejar com foco em saúde, enquanto aquelas com menor renda priorizam tempo e orçamento, buscando sustento básico com itens mais baratos.
Relatos indicam que a gestão da alimentação recai, majoritariamente, sobre as mulheres. A pesquisa reforça a necessidade de políticas públicas que reduzam o custo e o acesso, reconhecendo quem enfrenta maior custo social da alimentação saudável.
Sobre o estudo
A pesquisa ouviu pessoas de 18 a 40 anos, em cinco capitais: São Paulo, Belém, Fortaleza, Porto Alegre e Goiânia, com diferentes classes e perfis familiares. O método combinou questionários, grupos focais online e análise colaborativa entre pesquisadoras.
Os resultados dialogam com dados nacionais, como a POF, o Vigitel e o SISVAN, buscando mapear percepções, barreiras e facilitadores da alimentação saudável entre responsáveis pela compra de alimentos no lar, considerando recortes socioeconômicos, regionais, de gênero e idade.
Perspectiva para políticas públicas
Os autores destacam que entender o processo de escolha alimentar é essencial num momento de contradição social: grande parcela da população enfrenta insegurança alimentar enquanto índices de má alimentação persistem. Medidas públicas devem atuar para reduzir barreiras de preço e acesso, com foco em ampliar o acesso a alimentação variada e regionalmente representada.
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