- Os preços do gás na Europa subiram cerca de 70%, com o benchmark holandês TTF em €54 por megawatt-hora, pressionando o mercado e as perspectivas para o inverno.
- O armazenamento de gás underground estava em 28,4% (325 terawatts-hora) em 24 de março, abaixo do ano anterior e da média de cinco anos; a Alemanha tem 22,3%, a França 22,1% e a Holanda apenas 6,0%.
- A península Ibérica apresenta uma posição mais robusta: Portugal com 85,3% de capacidade e Espanha com 55,5%, devido a maior infraestrutura de importação de LNG e menor dependência do gás na geração de energia.
- O choque de oferta é estrutural: o Catar não consegue atender contratos após ataques no Irã; reparos podem levar até cinco anos, aumentando a volatilidade de preços.
- Impacto na inflação e contas de energia: analistas projetam alta de inflação na zona do euro em março e maior pressão sobre tarifas de gás, com efeitos variados nos EUA e na Europa; Itália já ajusta preços para clientes regulados e busca mais gás da Argélia, sem zerar o risco sistêmico.
Os preços do gás na Europa subiram cerca de 70% neste mês, com os estoques de gás subterrâneo em níveis baixos, elevando temores de uma repetição da crise energética de 2022. A referência holandesa TTF atingiu cerca de €54/MWh, contra €38/MWh no início do mês, sinalizando forte volatilidade.
A vulnerabilidade energética está assimétrica entre os países europeus. Estoques até 24 de março estavam em 28,4% (325 TWh), abaixo do ano anterior e da média dos cinco anos. Alemanha teve 22,3% de capacidade, França 22,1% e Holanda apenas 6,0%, o pior cenário do continente.
Portugal guarda 85,3% de capacidade, enquanto Espanha opera com 55,5%, graças a maior infraestrutura de LNG, menor dependência de gás na geração e avanços em renováveis. A península ibérica apresenta menor exposição às oscilações de preço no curto prazo.
O choque de oferta tem origem estrutural, não é temporário. O Catar, segundo maior exportador de LNG, confirmou que não pode mais cumprir obrigações contratuais após ataques no Irã, em Ras Laffan. Reparos podem levar até cinco anos.
Analistas estimam cenários de preço ainda mais altos. Goldman Sachs elevou a projeção do TTF para €72/MWh no 2º trimestre de 2026, ante €63/MWh, prevendo necessidade de atrair cargueiros de LNG para suprir o inverno. Cenários adversos chegam a €89/MWh ou mais, com possibilidades de alcançar acima de €100/MWh no verão.
As implicações para tarifas domésticas variam. Em entrevista exclusiva, Giuseppe Moles, da Acquirente Unico, explicou que o impacto direto aparece nas faturas de gás, com o componente de commodity já elevado. A eletricidade também responde, mas com efeito mais contido na linha de varejo.
A Itália, com estoques em 43,9%, está buscando ampliar o gás vindo da Argélia, maior fornecedora via gasoduto. O premiê Giorgia Meloni considerou a medida estratégica, reconhecendo que a solução não neutraliza o efeito sistêmico do risco no Golfo, mas pode atenuar o impacto local.
Sobre inflação, mudanças no preço do gás devem puxar a inflação ao consumidor para cima. Goldman Sachs projeta salto da inflação da zona do euro para 2,7% em março, com energia contribuindo majoritariamente. Medidas em vigor variam entre países, com impactos diferentes.
Especialistas divergem sobre a magnitude da crise atual. Alguns expertos afirmam que o choque não deve replicar integralmente 2022, dada a maior participação de renováveis e o retorno de plantas nucleares francesas. A resposta fiscal pública tende a ser mais contida.
A situação permanece volátil e depende da resiliência de suprimentos e da demanda global nos próximos meses. A dinâmica sugere maior volatilidade de preços e pressões inflacionárias, sem uma conclusão única até o momento.
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