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“O milhão virou troco”. Entenda como o dinheiro perdeu valor e por que é tão importante cuidar dele

Por que a escala do dinheiro mudou e como isso transformou a forma como entendemos riqueza.

As pessoas têm a impressão de que a perda de valor do dinhiero é maior do que, de fato, é, Imagem: FreePik.

Em 2011, o empresário Luís Fernando Schiavo realizou um sonho antigo: trocou uma Fiat Strada por uma Hilux SRV topo de linha. Pagou R$ 112 mil e lembra até hoje do que aquela aquisição simbolizou em sua vida: “Era uma felicidade difícil de descrever”, afirma. Quinze anos depois, a mesma caminhonete custa cerca de R$ […]

Em 2011, o empresário Luís Fernando Schiavo realizou um sonho antigo: trocou uma Fiat Strada por uma Hilux SRV topo de linha. Pagou R$ 112 mil e lembra até hoje do que aquela aquisição simbolizou em sua vida:

“Era uma felicidade difícil de descrever”, afirma.

Quinze anos depois, a mesma caminhonete custa cerca de R$ 348 mil. A conta é simples e desconfortável:
“Na época, com um milhão, você compraria quase 9 caminhonetes. Hoje, não compra três”.

Durante décadas, “ficar milionário” parecia a concretização do sonho de independência financeira. Era objetivo de vida, símbolo de sucesso, linha de chegada. Hoje, no entanto, possuir milhões não significa tanto assim. Não porque o dinheiro tenha desaparecido, pelo contrário. Ele cresceu. E cresceu rápido demais.

Segundo a gestora patrimonial Michelle Kallab, “o conceito de milhão perdeu força como sinônimo de riqueza real”.

“A inflação, o aumento do custo de vida e a valorização dos ativos imobiliários deslocaram o significado do ‘milhão’. Hoje, ele representa mais um início de estabilidade patrimonial do que riqueza efetiva”, afirma a fundadora do Amlak Kallab.

O  fato de as empresas serem avaliadas em bilhões é comum e, quando anunciado, já não causa mais espanto. Trilhões passaram a ser mencionados sem pausa dramática. Planos de estímulo, dívidas públicas, valor de mercado de empresas e fundos globais escalaram. Com isso, a régua mental também mudou.

A pergunta central é inevitável: como o dinheiro escalou tão rapidamente e como isso impacta a vida de cada um?

A inflação invisível da percepção

Há um fenômeno importante acontecendo na economia contemporânea: o dinheiro perde valor não apenas no bolso, mas também na cabeça.

Em termos concretos, moedas fiduciárias tendem a se desvalorizar ao longo do tempo, um processo estrutural. O próprio real já perdeu a maior parte do seu poder de compra desde sua criação. Mas há também outra variável: uma inflação simbólica.

A diferença entre inflação real e simbólica ajuda a explicar por que o dinheiro parece valer menos hoje, tanto no bolso quanto na percepção.

  • A inflação real é a alta efetiva dos preços, medida por índices como o IPCA, e impacta diretamente o poder de compra. Com o mesmo valor, compra-se menos. Por exemplo: um quilo de maçã que custa R$ 18,44 hoje passaria a cerca de R$ 18,51 no mês seguinte, considerando apenas o índice oficial.

Na prática, não é exatamente assim. Os preços sobem por uma série de fatores, como custos, câmbio e logística. E, muitas vezes, o consumidor paga mais do que o aumento médio indica.

A inflação simbólica não aparece nas estatísticas, mas altera a forma como as pessoas enxergam o dinheiro. Trata-se de uma mudança de referência: valores elevados que antes representavam riqueza passam a ter outro significado.

O que mudou não foi somente o que o dinheiro é capaz de comprar, mas o quanto ele representa.

Hoje, um milhão de reais dificilmente compra um apartamento em grandes capitais. Um milhão de dólares, cerca de 5,2 milhões de reais, já não significa independência financeira em muitos países desenvolvidos. O número continua simbólico, mas não coloca ninguém nas listas preferenciais dos bancos:

“O valor de entrada para o atendimento realmente preferencial em instituições financeiras brasileiras passou para algo entre 3 e 5 milhões de reais. Abaixo disso, predominam modelos híbridos e digitais de atendimento”, pontua Michelle.

A lógica é simples: o volume de capital define o grau de relevância do cliente dentro das instituições e, com a mudança de escala do dinheiro, esse patamar subiu.

Veja alguns produtos comuns de consumo e o quanto eles perderam de valor desde 2020:

Big Mac (sanduíche avulso, McDonald’s)
2020: R$ 18
2025: R$ 24

Gasolina (preço médio ao consumidor)
2020: R$ 4
2025: R$ 6

Arroz (5kg, tipo 1, marcas populares)
2020: R$ 18
2025: R$ 32

Aluguel em São Paulo (apto. de um a dois quartos, padrão médio)
2020: R$ 1.800
2025: R$ 2.800

iPhone (Preço de lançamento no Brasil)
2020: R$ 3.077 (Iphone 12, Pró, 256 GB)
2025: R$ 10.169 (Iphone 17 Pró, 512 GB)

Embora o IPCA tenha registrado inflação média de cerca de 35% em todo o período, os aumentos reais foram significativamente maiores.

Você sabia

  • que o transporte por aplicativo foi o serviço que mais encareceu em 2025, com alta de cerca de 56%?

Entre os alimentos, café moído (+35,65%), pimentão (+30,93%) e peixe pintado (+30,86%) tiveram aumentos expressivos, enquanto o IPCA do período ficou em 4,23%.
Os dados são do IBGE.

Quem são os “milionários comuns”

A mudança não ocorre apenas no Brasil. Desde os anos 2000, a riqueza global cresce de forma consistente, inclusive em termos reais. Mas esse crescimento não é homogêneo.

O mundo ficou mais rico, mas essa riqueza se sofisticou e se expandiu em escala.

Um exemplo claro é o surgimento dos chamados “milionários comuns”. Hoje, há cerca de 52 milhões de pessoas com patrimônio entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões, mais de quatro vezes o número registrado em 2000. O levantamento foi realizado pelo Global Wealth Report 2025. 

O resultado é paradoxal: há mais milionários do que nunca e, ainda assim, ser milionário nunca pareceu tão pouco extraordinário.

Quando o número deixa de fazer sentido

A história recente do dinheiro pode ser lida como uma mudança de escala, e essa transformação aparece nos dados.

Nos anos 1980 e 1990, o “milhão” dominava o imaginário econômico. No cenário global, mesmo as maiores empresas ainda operavam abaixo da marca de US$ 900 milhões em valor de mercado.

Nos anos 2000, o “bilhão” tornou-se a principal unidade de referência entre as maiores empresas. No entanto, ainda era muito distante do imaginário coletivo. As pessoas ainda queriam ser bilionárias. 

A partir dos anos 2015, o salto foi ainda maior: o “trilhão” entrou no vocabulário econômico. Em 2018, a Apple se tornou a primeira empresa de capital aberto a atingir US$1 trilhão em valor de mercado, algo como R$5,2 a valores de hoje. 

Hoje, a escala é outra. Empresas como Apple, Microsoft e Nvidia operam próximas, ou acima, de US$3 trilhões, enquanto Amazon e Alphabet orbitam entre US$1 trilhão e US$2 trilhões.

No campo público, a mudança de patamar é igualmente drástica. A dívida dos Estados Unidos já rompeu a barreira dos US$37 trilhões, o que equivale a R$210 trilhões na conversão atual. 

No Brasil, o endividamento segue uma trajetória de expansão acelerada: a dívida bruta consolidada já ultrapassa os R$9 trilhões, aproximando-se de 85% do PIB. 

Você sabe quais são as empresas mais valiosas da atualidade?

NVIDIA – US$ 4,61 trilhões (R$23 trilhões)

Apple – US$ 4 trilhões (R$20 trilhões)

Alphabet – US$ 3 trilhões (R$ 15 trilhões)

Amazon – US$ 2 trilhões (R$11,2 trilhões)

Meta – US$ 1,7 trilhões (R$ 8,56 trilhões)

Fonte: Investing.com

A perda de valor do milhão: riscos e oportunidades

O ponto mais relevante dessa transformação é a relação entre os números da economia e a experiência cotidiana.

A economia global cresceu, os mercados financeiros ganharam escala e os ativos passaram a se valorizar mais rapidamente do que a renda. Na prática, a riqueza aumentou, mas não necessariamente se tornou mais acessível. Michelle Kallab resume esse descompasso:

“O imaginário coletivo dificilmente acompanha o poder de compra e a complexidade do cenário econômico atual. Por isso, é comum que muitos clientes ainda busquem o primeiro milhão e, ao alcançá-lo, percebam que ele não compra o estilo de vida que imaginavam.”

Esse processo tem base estrutural: a expansão da riqueza ocorre, em grande parte, via valorização de ativos; quem já possui patrimônio se beneficia primeiro.

“Quem está exposto a ativos participa da valorização gerada pela liquidez global. Quem depende apenas de renda sofre com a inflação do dia a dia”, afirma o economista e empresário Luís Felipe Silveira. Enfatiza também que há uma reorganização silenciosa da economia:

“Hoje convivemos com duas dinâmicas distintas: a inflação de bens e serviços, que impacta o custo de vida, e a inflação de ativos, que eleva o preço de imóveis, ações e investimentos. O ponto central é que essas duas forças atingem classes sociais de maneiras profundamente desiguais.”

Não se trata apenas de quanto alguém ganha, mas de onde essa pessoa está posicionada na economia. Na prática, essa mudança altera a forma como o dinheiro impacta a vida de cada grupo:

“Dizer que o milhão perdeu relevância depende muito de quem está falando. Para a classe média, ele deixou de ser suficiente para atingir certos objetivos, como comprar um bom imóvel ou garantir segurança financeira, porque os ativos ficaram mais caros. Para a classe alta, o milhão se tornou apenas uma unidade pequena dentro de um sistema em que os valores de referência subiram exponencialmente. Já para as classes mais baixas, essa discussão é quase irrelevante, pois o desafio continua sendo lidar com o aumento constante do custo de vida.”

Quatro fatores atuam juntos nesse processo: inflação, câmbio, juros e o ambiente político e fiscal. O efeito final é o mesmo: aumento do custo de vida.

Como explica Jéssica Prata, banker na XP Investimentos, “preservar poder de compra exige diversificação real, entre fatores de risco, geografias e moedas, e não apenas ativos atrelados ao IPCA.”

Ela acrescenta que “a inflação percebida no dia a dia costuma ser maior que a oficial, o que exige uma abordagem mais ampla.”

Quem ganha e quem perde

“O milhão parece ter encolhido. Não em valor absoluto, mas em significado, em uma economia cada vez mais desigual”, afirma Silveira. 

Esse impacto pode assustar, mas, também surpreender. Por um lado, manter o poder de compra tornou-se mais desafiador; por outro, as oportunidades de “fazer o dinheiro trabalhar para você” se tornaram mais acessíveis. Em um cenário de inflação e valorização de ativos, manter o dinheiro parado implica perda de valor ao longo do tempo. Já o dinheiro investido tende, ao menos, a acompanhar essa dinâmica de valorização. 

Por isso, investir deixou de ser apenas uma estratégia de ganho e passou a ser uma forma de preservar patrimônio ao longo do tempo. 

O próprio percurso de Luís Fernando Schiavo exemplifica esse movimento. Após iniciar a carreira como representante comercial, passou a investir em imóveis de baixo e médio custo, reformá-los e revendê-los. Com o tempo, diversificou os negócios, fundou sua própria empresa de fertilizantes e ampliou seus investimentos. Hoje, também é sócio da Link Business School.

Para Michelle Kallab, investir vai além de apenas acumular:

“Trata-se de expandir e preservar riqueza de forma consistente ao longo do tempo.”

Ela destaca a importância de adotar estratégias como a diversificação de ativos com rendimento superior à inflação. Ressalta ainda que, atualmente, existem inúmeras opções de investimentos, desde a exposição a ativos com retorno real, como os do mercado imobiliário, até a internacionalização e um planejamento financeiro mais estruturado.

“Tudo depende do que a pessoa quer para seu patrimônio no momento e de como pretende viver seu futuro”, pontua.

O milhão ainda importa?

Sim, mas não como antes.

Ele continua relevante, mas deixou de ser sinônimo automático de segurança. Tornou-se relativo ao custo de vida, ao acesso a ativos e ao contexto econômico.

Essa mudança ajuda a explicar por que a própria ideia de “riqueza” está sendo redefinida. Mais do que um valor acumulado, ela passa a ser medida pela capacidade de sustentar um padrão de vida ao longo do tempo e manter a capacidade de proteger a família e o próprio futuro

Nesse sentido, Jéssica aponta uma transformação importante na forma de enxergar o dinheiro:

“Mais do que um valor absoluto, a segurança financeira passou a ser um conceito individual, diretamente ligado ao padrão de vida e às necessidades de cada pessoa ou família. A referência mais adequada deixa de ser ‘quanto tenho’ e passa a ser ‘quanto minha renda passiva consegue sustentar ao longo do tempo’.”

Em termos práticos, isso significa enxergar o patrimônio como um gerador de fluxo, e não apenas como um marco acumulado.

No fim, a mudança não é apenas financeira. É de escala, de expectativa e de mentalidade. Em um mundo em que os números cresceram mais rápido do que a experiência cotidiana, “fazer o dinheiro trabalhar para você” deixou de ser ambição e passou a ser condição para viver melhor ao longo do tempo.

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