- De março para abril, juros médios de várias linhas de crédito subiram, mesmo com a Selic caindo de 15% para 14,5%.
- Cheque especial passou de 147,10% para 152,10%; cartão de crédito parcelado de 162,08% para 171,82%; aquisição de outros bens de 40,92% para 44,41%.
- Consignado do setor público subiu de 24,46% para 25,19%; consignado do INSS, de 23,58% para 23,87%; linha para aquisição de veículos, de 23,43% para 24,75%.
- As únicas quedas foram crédito pessoal não consignado, de 88,61% para 76,73%, e consignado do setor privado, de 49,36% para 47,64%.
- Especialistas apontam inadimplência elevada e expectativa de juros futuros como motivos; setor aponta 82,8 milhões de negativados em março, maior série histórica.
A taxa Selic caiu pela primeira vez após dois anos, de 15% para 14,75% ao ano, em março, seguida de novo recuo para 14,5% em abril. Mesmo com o aperto monetário menor, as linhas de crédito ficaram mais caras para o consumidor. Entre março e abril, o custo do cheque especial avançou de 147,10% para 152,10% ao ano, segundo levantamento do Valor Data com dados do Banco Central. O cartão de crédito parcelado subiu de 162,08% para 171,82%. O crédito para aquisição de outros bens também aumentou, de 40,92% para 44,41%.
Outras modalidades registraram altas, ainda que menos expressivas. O consignado do setor público foi de 24,46% para 25,19%, e o consignado do INSS subiu de 23,58% para 23,87%. A linha para veículos saiu de 23,43% para 24,75%. Por outro lado, duas opções ficaram mais baratas: crédito pessoal não consignado caiu de 88,61% para 76,73%, e o consignado do setor privado recuou de 49,36% para 47,64%.
Por que os juros sobem mesmo com queda da Selic
A Selic é a referência, mas não determina sozinha as taxas cobradas pelas instituições. O spread bancário, ou seja, a diferença entre custo de captação e o valor cobrado do cliente, influencia fortemente o valor final. Despesas com logística, salários, tributos e depósitos compulsórios também pesam na composição das tarifas.
Entre os fatores que elevam os juros estão a própria Selic, custos operacionais de cada modalidade, o lucro pretendido pelos bancos e impostos pagos para oferecer o serviço. A inadimplência também ajuda a explicar parte do movimento de alta.
Inadimplência ayuda a entender o cenário
Especialistas apontam que maior inadimplência eleva as taxas para compensar perdas. Dados da Serasa indicam recorde de negativação em março, com 82,8 milhões de pessoas no cadastro negativo, em ritmo de alta por 15 meses consecutivos. Segundo o professor Alexandre Chaia, do Insper, a renda comprometida pela dívida fica em torno de 30% da renda, pressionando famílias e estimulando reajustes pelas instituições.
Essa combinação de endividamento elevado e expectativa de juros futuros elevados influencia as operações dos bancos. Pesquisadores apontam que o mercado precifica juros futuros, levando a repasses de custos aos contratos já firmados.
Desenrola 2.0 e o futuro das dívidas
O governo discute o Desenrola 2.0, programa de renegociação de dívidas com foco em cartões, cheque especial e crédito pessoal. A ideia é oferecer descontos de até 90% para dívidas, com eventual uso do FGTS para quitar parcelas. Economistas alertam que, embora possa aliviar o curto prazo, o programa não resolve a raiz do endividamento nem reduz os juros elevados de forma estrutural.
Especialistas ressaltam que o uso do FGTS pode estimular consumo imediato, especialmente entre os mais pobres, se não vier acompanhado de educação financeira. A vida financeira das famílias pode seguir pressionada caso a inflação persista, mantendo o cenário de juros altos.
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