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Dona Nena, paraense, ensina Lula e Macron sobre cacau e chocolate premium

De cacau como matéria-prima a chocolate premium, Dona Nena impulsiona cadeia local de valor na Ilha do Combu, elevando renda de produtores

Visita de Lula e Macron na propriedade de Dona Nena, na estufa de secagem de cacau
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  • Em meados de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Emmanuel Macron estiveram na Ilha do Combu, perto de Belém, para uma sessão de fotos na Casa do Chocolate Filha do Combu, de Dona Nena, Izete dos Santos Costa, 61 anos.
  • O Pará lidera a produção de cacau no Brasil (setenta e seis mil toneladas? — usei os dados: 137,5 mil toneladas, 46,2% da produção nacional), mas o preço de commodities gera volatilidade e motiva a aposta em valor agregado.
  • Dona Nena verticalizou o negócio, passando de venda de amêndoas a fábrica de chocolate, buscando margens maiores: de cerca de R$ 10 a 15 por quilo de amêndoas a chocolates que chegam a R$ 650 por quilo.
  • A Casa do Chocolate Filha do Combu produz entre quarenta e quinhentos quilos de chocolate por mês, gera empregos formais na comunidade e trabalha com linhas premium, como barras de alto teor de cacau, 100% cacau e brigadeiro com nibs.
  • A rede local envolve cerca de trinta produtores, com menos dependência de atravessadores e uso de subprodutos como o mel de cacau; desafios incluem energia instável, falta de água tratada, logística e crédito; a parceria com Prazeres Quaresma dos Santos fortalece a rastreabilidade e a identidade de origem.

Sob o calor úmido da Amazônia, próximo a Belém, uma visita presidencial deslocou a pauta econômica da região. Em meados de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente Emmanuel Macron viajaram até a Ilha do Combu, onde a diplomacia ganhou ares de agricultura. O encontro ocorreu na casa de Izete dos Santos Costa, conhecida como Dona Nena, que administra a Casa do Chocolate Filha do Combu.

Dona Nena é referência regional em chocolate premium. A agenda coincidiu com uma discussão sobre cadeia de valor na Amazônia, sob o contexto de preparação para a COP 30, prevista para Belém no fim de 2025. A visita revelou uma visão econômica que valoriza produtos com agregação de valor na região.

Da lavoura ao chocolate premium

O Pará lidera a produção de cacau no Brasil, respondendo por cerca de 46% do total nacional, segundo o IBGE. Mesmo assim, o estado enfrenta volatilidade de preços e margens apertadas quando o cacau é vendido como commodity. Dados do MAPA indicam que o valor bruto da produção pode oscilar conforme o cenário externo.

Diante disso, Dona Nena estruturalmente mudou o modelo de negócios. Em vez de vender amêndoas para atravessadores, passou a produzir chocolate no local, buscando maior participação nas margens finais. A transformação elevou o valor por quilo, de cerca de 10 a 15 reais na amêndoa para blocos de chocolate cotados a 650 reais por quilo.

A Casa do Chocolate Filha do Combu evoluiu de um processamento rudimentar para uma agroindústria capaz de produzir entre 400 e 500 quilos de chocolate por mês, gerando empregos formais na comunidade. Os produtos aparecem com alto teor de cacau, 100% cacau e opções como brigadeiro com nibs, posicionando a marca no segmento premium.

Rede regional e geração de renda

O novo modelo reorganizou a base produtiva local. Hoje, cerca de 30 produtores da região atuam como fornecedores, reduzindo a dependência de intermediários e assegurando renda mais estável. Mesmo diante de oscilações de preço no mercado externo, a produção mantém pagamentos acima da média para sustentar a cultura do cacau.

A estratégia também amplia a diversidade de receitas na ilha. Além do cacau, o aproveitamento do mel de cacau — o suco da polpa branca que envolve as sementes — entra no portfólio como novo produto, ampliando o valor agregado de cada fruto.

Parcerias e continuidade

A trajetória da parceria entre Dona Nena e Prazeres Quaresma dos Santos, 58 anos, proprietária do Sítio Livramento, ilustra a colaboração com base na cacau e na identificação de origem. Prazeres descreve como contou com especialistas para estruturar a cadeia de processamento, mantendo o cacau conectado aos produtores.

A estratégia de rastreabilidade fortalece a identidade de cada lote, ajudando a diferenciar o produto no mercado. Ao mesmo tempo, o mel de cacau é incorporado ao portfólio, elevando o potencial de receita sem exigir desmatamento adicional.

Desafios e vulnerabilidades locais

A produção, no entanto, permanece sujeita a condições climáticas extremas e a entraves estruturais. Entre eles, a oscilação climática que já provocou quedas abruptas na colheita de alguns produtores, e a insegurança fundiária típica da ilha, que complica investimentos de longo prazo.

A Ilha do Combu é área de proteção ambiental, o que impõe limitações de ocupação e exige regulações para atividades agropecuárias. A dependência de concessões públicas e de assistência técnica também compõe o cenário de obstáculos para a expansão do modelo.

Mesmo diante desses entraves, Dona Nena declara que o objetivo não é ampliar a área plantada; é otimizar a produção existente com foco em sustentabilidade. Ela afirma que a prioridade é cuidar e melhorar o que já existe na floresta, sem desmatar.

Perspectivas para a região

A experiência da Ilha do Combu sinaliza uma mudança na forma de pensar a Amazônia: não apenas como fornecedora de matéria-prima, mas como geradora de cadeias de valor sofisticadas. A iniciativa pública e privada precisa considerar políticas que apoiem a transformação produtiva sem comprometer a proteção ambiental.

A narrativa mostra que a produção local pode sustentar a economia, aumentar a renda de ribeirinhos e consolidar uma identidade de produto de alto valor. Dona Nena, ao compartilhar conhecimentos com autoridades, destaca o potencial de transformar produção em estratégia econômica.

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