- O primeiro‑ministro Narendra Modi pediu austeridade à população indiana, incentivando menos consumo de combustível e fertilizantes, menos compra de ouro e menos viagens, diante de preços de energia elevados pela guerra no Irã.
- A medida sinaliza uma possível guinada da Ásia para uma gestão econômica mais estratégica, com países como Filipinas, Bangladesh e Sri Lanka adotando medidas semelhantes desde março.
- Modi destacou a necessidade de reduzir importações de energia para preservar as reservas em moeda estrangeira, já que cerca de noventa por cento do petróleo e gás vêm de fora.
- Analistas, como os do banco japonês Nomura, apontam uma reavaliação profunda de como a Índia gere o setor externo, em meio à crise no estreito de Hormuz e ao fim do modelo de crescimento baseado em preços baixos de energia e frete.
- A reportagem contextualiza a abertura econômica desde 1991, ressaltando que a dependência externa pode ter fragilizado o país, e que a crise atual expõe a fragilidade da ordem mundial inaugurada na década de 1990.
O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pediu recentemente sacrifícios aos 1,4 bilhão de habitantes para reduzir o consumo de combustível, fertilizantes e viagens internacionais. A medida ocorre em meio ao aumento global de preços de energia provocado pelo conflito no Irã. A fala sugere uma guinada na globalização neoliberal na Ásia e o retorno de uma gestão econômica mais estratégica.
Analistas apontam que 90% do petróleo e gás importados pela Índia tornam o país vulnerável a variações de preços e ao repasse cambial. Com o aumento das tarifas, o governo teme impactos sobre inflação, subsídios e balanço de pagamentos. A reserva de moeda externa já sofreu saques superiores a 40 bilhões de dólares.
Especialistas consultados pelo mercado financeiro indicam uma reavaliação mais profunda de como a Índia gerencia seu setor externo. O estopim tem relação com a crise no Estreito de Hormuz, que expõe a dependência de rotas comerciais estáveis e de hidrocarbonetos baratos da região.
A mudança de postura também dialoga com a perda de confiança em um modelo de crescimento já consolidado desde os anos 1990, marcado pela abertura econômica. A morte de Manmohan Singh, ex-ministro das Finanças, em 2024, é citada como marco que moldou uma visão mais cautelosa sobre déficits externos.
Desde 2014, sob Modi, a Índia passou a ver a globalização como veículo confiável para ampliar a integração de mercados. A percepção de que o país era grande o bastante para não falhar contribuiu para uma estratégia mais agressiva de abertura financeira e de investimentos.
A ONU, em relatório divulgado em abril, advertiu sobre perdas significativas na região sul da Ásia devido ao conflito envolvendo os EUA, Israel e o Irã. A previsão aponta queda de até 3,6% na atividade regional, em contraste com 0,4% na Ásia Oriental, se o cenário de instabilidade persistir.
O documento aponta caminhos alternativos: ampliar capacidade produtiva doméstica, manter estoques estratégicos de itens essenciais e priorizar a segurança econômica em vez de depender apenas de cadeias globais. A análise reforça uma leitura de que a atual fragmentação geopolítica desafia o modelo de globalização vigente.
O Irã e a crise associada evidenciam que a dependência externa, dominante na era pós-1990, pode colocar em risco economias emergentes. A situação atual sinaliza uma necessidade de reavaliar estratégias de comércio, reserva de valor e gestão de risco externo.
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