- Grandes empresas de petróleo e gás afirmam liderar a transição energética, mas dados mostram o contrário: apenas 1,42% da energia global vem de renováveis e 0,01% da energia que elas extraem é de fontes renováveis.
- Em 48 projetos avaliados, as iniciativas de energias renováveis, biocombustíveis, captura e armazenamento de carbono (CCS), hidrogênio verde e compensação de emissões normalmente não substituem combustíveis fósseis; costumam manter o uso de petróleo, gás ou carvão.
- O CCS, por exemplo, costuma estar ligado à recuperação avançada de petróleo, prolongando a vida útil de campos e aumentando a extração de combustíveis fósseis.
- Projetos de energias renováveis às vezes existirem apenas para abastecer refinarias e perfurações, não descarbonizando a rede elétrica, o que facilita a extração contínua de combustíveis fósseis.
- Além disso, há impactos sociais e políticos: conflitos fundiários, deslocamento de comunidades e subsídios públicos que caminham dinheiro de contribuintes para promessas de grandes reduções de emissões, adiando a transição real.
As grandes petrolíferas afirmam liderar a transição energética, investindo em relações públicas para se apresentarem como parte da solução. Uma análise independente questiona essa narrativa.
O estudo avalia 48 projetos geridos por companhias de combustíveis fósseis, incluindo biocombustíveis, CCS, restauração florestal e energia renovável com uso próprio. O objetivo é verificar se substituem fósseis ou apenas ampliam as credenciais ecológicas.
Os autores ressaltam que as 250 maiores empresas do setor detêm apenas 1,42% da energia renovável global e que apenas 0,01% da energia que extraem vem de fontes limpas. Em essência, a transição não está sendo impulsionada por elas.
Rumos de atraso
A análise usa o Atlas Global de Justiça Ambiental, da Universidade Autônoma de Barcelona, para mapear 48 projetos. Segundo os pesquisadores, poucas iniciativas substituem combustíveis fósseis, mas simulam conformidade ambiental para manter o modelo atual.
Casos de CCS aparecem ligados à recuperação avançada de petróleo, com injeção de CO2 para extrair mais petróleo. Documentos do setor indicam que parte das instalações foram criadas justamente para ampliar a extração.
O relatório descreve ainda o uso de “hidrogênio limpo” como fachada ecológica para projetos que, na prática, mantêm a produção de gás. Também há parques que visam abastecer operações de petróleo, não a rede elétrica.
Impactos locais e políticas públicas
Em muitos casos, comunidades indígenas sofrem com deslocamentos ou restrições de direito ao território devido a plantações de biocombustíveis ou de projetos de compensação de carbono. Esses impactos aparecem com frequência sem consulta adequada.
A resistência a tais projetos é, às vezes, enquadrada como oposição a ações climáticas, mas os dados apontam que é uma contestação a modelos que mantêm a economia fóssil.
O estudo aponta ainda que governos costumam subvencionar esses projetos, transferindo dinheiro público a empresas privadas em troca de promessas de emissões menores que costumam ser modestas.
Ao longo dos 48 casos, a conclusão central é repetida: as chamadas falsas soluções não são erros isolados, mas ferramentas para adiar o encerramento da era dos combustíveis fósseis.
*Freddie Daley, Universidade de Sussex; Marcel Llavero-Pasquina, Universitat Autònoma de Barcelona, assinam a pesquisa*
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