- Em maio de 2021, relatos do território Yanomami destacaram desnutrição grave em crianças, incluindo uma menina de oito anos da comunidade Maimasi, e, dias depois, a morte de um bebê de um ano da comunidade Yaritha.
- Dados da SESAI e do DataSUS indicam que, em 2019-2020, pelo menos 24 crianças yanomami com menos de cinco anos faleceram por desnutrição, em um território com cobertura de saúde irregular.
- A assistência médica permanece irregular: apenas setenta e um dos trezentos e setenta e um vilarejos receberam visitas de nutricionistas em 2019-2020, com várias unidades sem equipes médicas permanentes.
- A presença de garimpeiros ilegais, intensificada desde o início de 2019, é associada à contaminação por mercúrio, poluição de água e surtos de malária, agravando a desnutrição entre crianças.
- A situação tem levado a ações de procuradores e organizações, incluindo medidas para reestabelecer o fornecimento de alimentação em postos de saúde indígenas e a necessidade de fortalecer educação nutricional e a gestão de saúde nas comunidades Yanomami.
O relato sobre a desnutrição de crianças Yanomami voltou a ganhar destaque em maio, após publicação de Folha de S.Paulo. A imagem de uma menina de 8 anos, da comunidade Maimasi, mostrava costelas à mostra. A narrativa apontou falta de visitas de profissionais de saúde ao território.
No mesmo dia, houve ataque de garimpeiros ilegais na comunidade Palimiu, no território Yanomami. Poucos dias depois, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que criminalizar garimpeiros “não é justo”, enfatizando que a declaração não se baseia em relação familiar.
Dias depois, a imprensa relatou a morte de uma criança de 1 ano, da comunidade Yaritha, por desnutrição severa. Segundo relatos, houve pedido de airlift para Boa Vista, capital de Roraima, na tarde de 20 de maio, mas a operação não ocorreu a tempo.
Contexto de saúde e assistência
Dados de 2019-2020 apontam ao menos 24 crianças Yanomami com menos de 5 anos mortas por desnutrição, segundo SESAI. As informações são preliminares e refletem a ausência de cobertura de saúde abrangente na reserva, que abriga 15 das 37 comunidades do DSEI Yanomami.
Entre 2019 e 2020, 7% das mortes por desnutrição de crianças no Brasil ocorreram na área Yanomami, apesar da população da reserva representar cerca de 0,013% do país. A taxa é desproporcional ao restante do território nacional, conforme dados de DataSUS e SESAI.
Estudos de 2019 indicam alta desnutrição crônica entre crianças monitoradas na região. Em áreas como Auaris e Maturacá, a desnutrição crônica atingiu mais de 80% entre as crianças acompanhadas, com desnutrição aguda também elevada.
A falta de presença governamental é apontada como fator estrutural. Organizações locais destacam escassez de serviços, equipes que não chegam às comunidades e atraso na transferência de pacientes para tratamentos mais complexos.
Infraestrutura e acesso à alimentação
A maior parte das 371 comunidades Yanomami carece de unidades de saúde básicas que funcionem plenamente. Em muitos locais, crianças dependem de visitas ocasionais de equipes de saúde, que não chegam com regularidade nem têm insumos suficientes.
Relatos indicam que, mesmo quando há unidades, a distância e a logística dificultam o atendimento. Em Palimiu, por exemplo, a visita de profissionais não ocorreu com a frequência necessária, agravando quadros de malnutrição entre os moradores.
A suspensão de fornecimento de alimentos em postos de saúde indígenas contribuiu para queda no uso de serviços. Organizações como Red Cross e ISA atuaram como monitores e apoiadores, mas não substituem políticas públicas estáveis.
Mineração, água e nutrição
A presença de garimpeiros ilegais é apontada como fator central para a deterioração das condições de vida. Estudos indicam impactos na água, no ecossistema e na transmissão de doenças, como malária, com consequências diretas para a nutrição infantil.
Mercúrio utilizado na mineração contamina rios e peixes, afetando a saúde de moradores, incluindo crianças. A relação entre mineração, malária e desnutrição é defendida por pesquisadores que acompanham a região há décadas.
A narrativa histórica mostra que invasões de garimpeiros começaram ainda nas décadas de 1980 e 1990, com sérios impactos em populações Yanomami. A atual intensificação, associada a políticas de governo, é citada como agravante para a crise humanitária observada.
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