- Quatro dias depois de Van Gogh cortar parte da orelha, Paul Gauguin presenciou a guilhotina de Prado em Paris, o assassino que havia degolado uma mulher em 1886.
- Gauguin, que encontrara Van Gogh no dia seguinte ao incidente, foi ao local da execução na Place de la Roquette, chegando por volta de 2h30 da madrugada.
- Cerca de um mês depois, Gauguin criou uma jarra cerâmica em forma de autorretrato com ferimentos no pescoço e nas orelhas, sugerindo a ligação com a morte de Van Gogh.
- A peça cerâmica acabou dando origem a outras obras, incluindo The Black Woman, associada a referências bíblicas e à experiência de ter testemunhado a decapitação de Prado.
- Há divergências entre o relato de Gauguin e a cobertura da imprensa da época, o que levanta dúvidas sobre detalhes descritos pelo artista.
Gauguin acompanhou Van Gogh em Arles, no etájo da Yellow House, quando o episódio de mutilação ocorreu. Quatro dias depois, Gauguin testemunhou, em Paris, a guilhotina de um assassino conhecido como Prado. O caso chamou a atenção da imprensa da época.
Após a briga com Van Gogh na noite de 23 de dezembro de 1888, Gauguin deixou o casa e passou a noite num hotel. No dia seguinte, encontrou o colega ferido gravemente, que foi levado ao hospital; Theo Van Gogh chegou a Paris no Natal. Gauguin e Theo retornaram a Paris entre 26 e 27 de dezembro.
Na madrugada seguinte, Gauguin recebeu um aviso de um guarda municipal no Café de la Nouvelle Athènes: Prado seria executado ao amanhecer. O assassinato de Marie Aguétant, ocorrido em 1886, destacava-se como caso de grande repercussão pública, comparado a Jack, o Despertador, de Londres.
Gauguin correu para a Place de la Roquette, perto da prisão, chegando por volta de 2h30. Apesar do cansaço, ficou horas acordado na manhã fria de dezembro, descrevendo o momento em memória que, mais tarde, relatou em seu livro Avant et Après, de 1903.
Segundo relatos de Gauguin, a lâmina da guilhotina atingiu o rosto do condenado, em vez do pescoço, durante a execução. A prática gerou controvérsia entre jornalistas da época, que escreveram sobre a cabeça sendo retirada após a remoção do corpo, em divergência com o testemunho do artista.
Desdobramentos artísticos
Em torno de um mês após a execução, Gauguin criou uma jarra cerâmica que serve como autorretrato, com traços de sangue no pescoço e orelhas, sugerindo o paralelo com Van Gogh. A peça retrata o próprio rosto de forma simbólica, com olhos fechados e sangue.
A jarra ganhou relevância no conjunto de obras de Gauguin, que também desenvolveu outras peças temáticas. Em 1889, produziu Still life with Japanese Print, com referências a elementos de sua época e de sua experiência artística.
Outra peça associada à jarra é The Black Woman, de 1889, que será leiloada pela Sotheby’s em Nova York. A obra retrata uma mulher caribenha segurando a cabeça de um homem europeu, com ligações aos temas de beheading que Guanquin já havia explorado.
Notas de imprensa da Sotheby’s descrevem The Black Woman como combinação de referências a Vênus, narrativas bíblicas e a experiência de Gauguin ao testemunhar o beheading, conectando-se aos eventos de Prado.
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