- As famílias thonga foram deslocadas nos anos oitenta para a criação de uma área protegida, hoje buscando no turismo uma forma de manter viva a cultura local.
- Em Kosi Bay, na costa leste da África do Sul, guias demonstram a pesca tradicional com arpão e o sistema de kraal (merca), usado há mais de setecentos anos.
- O kraal é uma cerca de varas que guia peixes para uma cesta em formato de funil, permitindo capturar apenas peixes adultos e reduzir o impacto na população.
- O deslocamento gerou uma diaspora de cerca de 1.800 pessoas em parte do norte da reserva; há queixas de exclusão do processo decisório e de planejamento, incluindo propostas de integração com áreas vizinhas.
- Embora o turismo gere empregos, moradores afirmam que os benefícios não atingem toda a comunidade Thonga, e há cobrança por maior participação nos rumos do parque e da gestão da região.
Kosi Bay, África do Sul — Em um estuário remoto na Costa leste, o povo Thonga busca manter vivas tradições de pesca diante do deslocamento causado pela proteção ambiental. O jovem Fano Tembe demonstra, com vara e isca, como funciona o método de caça a peixe por meio de um kraal, markando a ligação entre passado e turismo.
Tembe, de 28 anos, já pesca desde criança e hoje trabalha para uma operadora de turismo local, apresentando aos visitantes a técnica tida como herança de quatro séculos. A visita ocorre em meio aos canais que ligam quatro lagos próximos à fronteira com Moçambique, a cerca de 4 km do border sul.
O kraal é uma cerca de varas distribuídas na parte rasa dos lagos, com curvas que atraem cardumes em direção a um funil de cestas. Pequenos peixes passam, mas peixes maiores ficam retidos, onde é realizado o arremesso com lança. A prática, segundo especialistas, tem baixo impacto sobre as populações.
As famílias Thonga foram deslocadas nos anos 1980, quando a área passou a fazer parte do iSimangaliso Wetland Park, o primeiro Patrimônio Mundial da UNESCO no país. A mudança interrompeu a vida de pescadores que viviam às margens dos lagos, forçados a se deslocar para fora da área protegida.
Hoje, muitos ainda trabalham com as armadilhas, mas precisam caminhar ou viajar de carro até os lugares de uso, fora da borda de reserva. A atividade turística surge como opção para manter a cultura, mas moradores relatam dificuldades para acesso e participação no setor.
Nsele, que também guia turistas em Kosi Thonga Safaris, descreve a rotina de pesca e a relação com as marés, ventos e mulatas locais. Os nomes locais para o mês de julho, quando ocorre a maior pesca, e para a água, revelam o conhecimento tradicional transmitido há gerações.
O conceito de kraal, palavra de origem africânica que designa o cercado de peixes, inclui materiais naturais, como cordas feitas à mão a partir de folhas de plantas locais. Não é permitido o uso de cordas sintéticas segundo a tradição Thonga, embora haja exceções entre alguns indivíduos.
Especialistas locais e pesquisadores, como o fisicista Robert Kyle, registraram que as armadilhas preservam o ritmo de reprodução dos peixes. As armadilhas, posicionadas para não bloquear o retorno de juvenis, ajudam a manter a pesca com baixo impacto ao longo do tempo.
O deslocamento forçado deixou marcas profundas. Famílias dispersas formaram a comunidade deslocada da região norte da reserva, estimada em 1,8 mil pessoas. Hoje, o Comitê de Comunidades Deslocadas de Kosi Bay (KBDCC) busca participação em planos de gestão e no desenvolvimento do turismo, alegando exclusão em decisões públicas.
A gerência do iSimangaliso sustenta ter promovido consultas e participação comunitária, ainda que reconheça limites de atuação em certos temas. As necessidades locais, dizem, incluem assegurar que benefícios do turismo alcancem quem vive da pesca tradicional.
Para muitos, turismo e conservação são caminhos para manter vivas as tradições Thonga, mas a comunidade continua buscando participação plena e justiça histórica, inclusive em relação a terras, culturas e empregos. A situação permanece em aberto, com diálogo entre autoridades, moradores e operadores turísticos.
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