- O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) cancelou a compra de mais de 17 toneladas métricas de carne de tubarão prevista para 2026, citando risco toxicológico relacionado a metais pesados.
- A decisão ocorreu após a ONG Sea Shepherd Brasil ter encaminhado uma carta aos administradores do hospital pedindo a reconsideração, destacando ameaças à espécie e riscos para a saúde pública.
- O HCFMUSP já havia aberto licitações para cação entre 2008 e 2020, totalizando pelo menos 135 toneladas, e divulgou novo edital em fevereiro de 2026 que motivou a mobilização.
- O Brasil é o maior consumidor mundial de carne de tubarão, com compras governamentais contribuindo para o consumo em hospitais, escolas e prisões, segundo investigações anteriores.
- Em março, o Tribunal Federal de Curitiba estabeleceu novas exigências de rotulagem, rastreabilidade e testes de contaminantes para aquisições federais de carne de tubarão, com estados estudando medidas semelhantes.
O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) cancelou a intenção de adquirir mais de 17 toneladas métricas de cação, carne de tubarão, para o processo de compras de 2026. A decisão ocorreu após avaliação de riscos toxicológicos, sobretudo quanto a metais pesados, como mercúrio e arsênio.
O HCFMUSP é o maior complexo hospitalar público da América Latina, reunindo pelo menos oito institutos em São Paulo, incluindo o instituto do coração, referência que atende centenas de milhares de pacientes por ano. A mudança visa manter padrões de segurança alimentar e qualidade de suprimentos.
A decisão veio após a força-tarefa de organizações ambientalistas e uma investigação publicada sobre o tema. A Sea Shepherd Brasil notificou a instituição em fevereiro de 2026, lembrando que o tubarão está ameaçado e que a carne pode apresentar contaminantes. Em março, o hospital comunicou a retirada do item da licitação 2026.
Segundo o hospital, a mudança reforça o compromisso com a excelência nutricional e a segurança dos insumos oferecidos. A medida não encerra, de forma generalizada, todas as compras de cação pelo complexo, mas interrompe especificamente a licitação referida ao ano de 2026.
Contexto regulatório e econômico
O Brasil consome cerca de 40 mil toneladas de carne de tubarão por ano, com metade proveniente de importação. Em 11ª Vara Federal de Curitiba, decidiu-se, em março, que aquisições públicas federais devem respeitar nova rotulagem de espécies, rastreabilidade e requisitos de testes de contaminantes.
Apesar disso, o tribunal manteve status quo sobre a proibição total de compras governamentais de cação, em nível federal, estadual e municipal. A prática de vender a carne sob o nome genérico cação é comum no varejo brasileiro, dificultando a identificação da espécie.
Deputado federal Nilto Tatto aponta que a decisão ajuda a conservar espécies e a saúde pública, ao coibir fraudes na comercialização de carne de tubarão. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná estudam exigir rotulagem por espécie para produtos de cação, como já ocorre no Paraná.
Novas regras de pesca e comércio
Em 26 de março, o Ministério do Meio Ambiente anunciou regras para a pesca e o comércio de tubarões azuis, visando maior fiscalização após o tubarão ter entrado no Anexo II da CITES. Entre as medidas estão proibições de pesca com anzóis de linha de superfície com ganchos de aço, limites de peso de captura e obrigação de devolução de fêmeas e de indivíduos abaixo de 45 kg.
A diretiva, produzida pelo IBAMA, gerou críticas de representantes do setor, que alegam sobreposição de competências. Organizações de pescadores manifestaram oposição, enquanto defensores da conservação elogiaram a medida como avanço para proteção de espécies. A Sea Shepherd Brasil celebrou o movimento como resultado de pressão acadêmica e civil.
Panorama de compras de cação
Investigação de 2025 indicou milhares de licitações de cação envolvendo milhares de municípios e estados. Em 2026, continuam licitações de cação por parte de prefeituras, com grandes volumes em pauta em cidades como Serra (ES), Camaçari (BA), São Gonçalo (RJ) e Salvador (BA).
No âmbito do HCFMUSP, o estudo mostra ainda que o conjunto hospitalar já adquiriu cação em licitações anteriores para outras unidades da instituição, com foco em alimentação hospitalar. A instituição não detalhou se a suspensão do item de 2026 significa uma mudança de política para os demais estabelecimentos do complexo.
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