Em Alta NotíciasConflitosPessoasAcontecimentos internacionaiseconomia

Converse com o Telinha

Telinha
Oi! Posso responder perguntas apenas com base nesta matéria. O que você quer saber?

Confiar nas negociações de financiamento, diz Valéria Paye sobre fundos indígenas

Fundo Podáali, gerido por povos indígenas, defende financiamento direto e baseado na confiança para demarcação de territórios e apoio a movimentos na Amazônia

In the village of Três Maria in Mato Grosso, Brazil, a woman holds a sample of babassu coconut. The community initiative to protect the biome and fruit extraction in the Cerrado received a Xavante Award from the Podáali Fund.
0:00
Carregando...
0:00
  • O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu formalmente territórios indígenas em Belém durante a COP30, incluindo o território Kaxuyana-Tunayana, marco para povos da região.
  • O Podáali Fund, fundação indígena da Amazônia brasileira, é exemplo de fundos liderados por povos tradicionais que buscam financiamento direto, baseado na confiança, com governança pelos próprios indígenas.
  • Valéria Paye ressalta que a filantropia precisa de reciprocidade, construção conjunta e menos burocracia, para que os recursos cheguem às comunidades de forma mais ágil e justa.
  • O fundo apoiou a demarcação física do território Kaxuyana-Tunayana, destacando a atuação indígena como parte central do processo de legitimidade de terras.
  • Redes indígenas, como a COIAB, e plataformas de comunicação têm papel importante em levar a voz dos povos ao cenário internacional, apesar de desafios internos no Brasil para manter avanços em demarcação e direitos.

O anúncio de reconhecimento de territórios Indígenas feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a COP30, em Belém, marcou um marco para povos tradicionais. Entre os territórios celebrados está o Kaxuyana-Tunayana, de 22 mil km², cuja demarcação contou com apoio direto de comunidades e movimentos.

A Podáali Fund, fundo Indígena para a Amazônia brasileira, figura como destaque nessa transformação da filantropia. Criado formalmente em 2020 pelo COIAB, após mais de uma década de consultas, o fundo busca ampliar o financiamento direto às próprias comunidades, em termos definidos por elas.

Essa nova orientação, associada à tendência de filantropia baseada na confiança, favorece fundos geridos por quem recebe o apoio — indígenas, mulheres, jovens e movimentos sociais. A Podáali representa esse modelo, com governança e valores alinhados às culturas locais, como reciprocidade e responsabilidade compartilhada.

Valéria Paye, diretora-executiva da Podáali, reforça que a relação com financiadores precisa ser de verdadeira reciprocidade. Segundo ela, o objetivo é que as comunidades definam prioridades e acompanhem resultados, sem permitir que a burocracia externa imponha condições desiguais.

Em conversa com a Mongabay, Paye descreve a construção do fundo como resposta às experiências negativas anteriores com intermediários. O processo envolve decisões tomadas pelas próprias comunidades, com participação de COIAB e sem desvinculação da identidade indígena.

Paye também explica que, para a Podáali, o projeto pertence às comunidades que o executam, não à fundação nem a parceiros externos. A gestão busca uma parceria igualitária, com monitoramento realizado pelas próprias comunidades com base em acordos pactuados.

Entre os exemplos práticos, a Podáali tem apoiado demarcações de terras, incluindo ações físicas no território Kaxuyana-Tunayana. O bancada de lideranças indígenas realizou os passos necessários para demarcar a área, contando com o suporte do fundo para viabilizar o processo.

A executiva ressalta que o acesso a financiamento direto ainda é desafiador no Brasil, dada a forma como muitos recursos passam por canais governamentais e instituições não indígenas. A Podáali busca ampliar caminhos que reconheçam as formas de organização Indígena, mesmo sem estruturas formais como CNPJ.

Questionada sobre lições para iniciativas semelhantes ao redor do mundo, Paye defende que o essencial é manter o fundo enraizado na identidade e nos tempos próprios dos povos. O objetivo é criar instrumentos que respondam às necessidades comunitárias sem perder a autonomia.

Em relação a mecanismos externos, Paye critica fundos estabelecidos por estados que prometem financiamento direto, mas mantêm grande parte da governança sob instituições públicas. Para ela, essa configuração não entrega controle real às comunidades nem assegura participação indígena efetiva.

Além disso, Paye destaca o papel da comunicação indígena na produção de políticas climáticas. Redes de comunicadores lideradas por COIAB ampliam a voz das comunidades, levando mensagens próprias a plataformas globais e fortalecendo o diálogo com governos e organizações internacionais.

Sobre o balanço da COP30, Paye vê avanços — como maior participação indígena em espaços oficiais e a divulgação de dados sobre demarcações —, ao mesmo tempo em que aponta contradições domésticas. A expectativa é manter a pressão internacional para sustentar avanços legais e institucionais.

A Podáali segue atuando como elo entre povos da Amazônia e financiadores, buscando recursos que cheguem diretamente às comunidades, com governança que reflita seus próprios calendários, necessidades e visões de futuro.

Comentários 0

Entre na conversa da comunidade

Os comentários não representam a opinião do Portal Tela; a responsabilidade é do autor da mensagem. Conecte-se para comentar

Veja Mais