- Em 21 de fevereiro de 2022, antes de um acordo parecer próximo, a Rússia invadiu a Ucrânia e as negociações com os EUA mostraram-se detalhadas, mas não se concretizaram; a leitura de Teerã era de que crises europeias deixariam sua posição mais favorável, o que não aconteceu.
- Hoje há um descompasso entre como Teerã entende as negociações e como Washington conduz, com um “vazamento de velocidade” que pode encurtar prazos desde já.
- No mês anterior, Israel atacou o Irã em larga escala após sinalizações diplomáticas, destruindo parte da liderança militar e reduzindo o enriquecimento de urânio, o que enfraqueceu a alavancagem de Teerã.
- O acordo de 2015, chamado Plano de Alberto de Ação Conjunta (JCPOA), não reflete mais a realidade atual; os EUA insistem em que, além de nuclear, haja restrições a mísseis balísticos e atuação regional, tornando a toolkit de negociações amplamente obsoleto.
- O ambiente estratégico mudou no Oriente Médio: Síria, Hezbollah, Hamas e Iraque perderam parte de sua influência; Teerã continua acreditando que a via diplomática levará a um acordo, enquanto os riscos de escalada e de esgotamento de cansaço das negociações aumentam.
Iran erra ao subestimar a própria posição e o momento internacional, com consequências potencialmente graves. O país acredita controlar as negociações com os Estados Unidos, mas as expectativas não se confirmaram e o cenário mudou.
Em 21 de fevereiro de 2022, a potência buscar negociar com Washington enquanto reagia aos desdobramentos da guerra na Ucrânia. Irã, EUA e demais signatários do acordo nuclear viviam a expectativa de um acordo, segundo relatos de assessores próximos à delegação iraniana.
A conversa mirava aliviar parte das sanções durante a gestão de Joe Biden, mas o conflito na Europa redefiniu prioridades globais. Oficiais iranianos afirmaram que o inverno seria favorável a Teerã, e a Europa seria atingida pela crise energética, fortalecendo a posição iraniana.
Contexto internacional
O que aconteceu depois evidenciou uma discrepância entre a leitura de Teerã e a prática de Washington. Um diplomata regional falou de um chamado “gap de velocidade” entre as abordagens. Segundo ele, a paciência não é o impulso estratégico de Biden, que busca avanços rápidos em alguns casos.
A mensagem foi clara: prolongar as negociações para abrir espaço político nos EUA poderia ser arriscado para Teerã, cuja tolerância a atrasos pode se esvair antes de qualquer calendário diplomático. A advertência ecoa momentos anteriores de choque entre expectativas iranianas e a realidade.
Cenário regional e lições da experiência
Na véspera de ataques israelenses de 2024, autoridades iranianas esperavam evitar conflitos até o fim de uma rodada de negociações em Muscat. Em vez disso, Teerã sofreu ataques com danos significativos a infraestrutura militar e elevou a tensão regional.
O fim daquele confronto, marcado por uma trégua e ações coordenadas, deixou Teerã com menor capacidade de enriquecimento e infraestrutura danificada. A percepção de que houve uma vantagem de barganha anterior tornou-se menos viável.
Mudanças estruturais no ambiente estratégico
Um ex-funcionário iraniano apontou que o país continua preso a um modelo de 2015, quando o acordo nuclear parecia mais viável. Hoje, condições políticas, militares e internacionais são diferentes, exigindo novas ferramentas de negociação.
A gestão de 2015 dependia de convergência entre Washington e Teerã e de um ambiente internacional favorável. No cenário atual, EUA cobram restrições combinadas a mísseis balísticos e atividades regionais, tornando o toolkit anterior inadequado.
Desafios no processo de negociação
Teerã interpreta o aumento de operações militares dos EUA como pressão para retomar as negociações, mantendo a esperança de acordo nuclear. A leitura de que Washington busca evitar uma guerra regional prolongada persiste, ainda que o equilíbrio de poder tenha mudado.
O despreparo para escaladas não é o problema central. Segundo relatos ocidentais, Teerã demonstra capacidades e reabastece arsenais, mas confia em um desfecho diplomático anterior. Tal confiança pode estar desatualizada diante da nova realidade regional.
Cenário interno e perspectivas
O entorno geopolítico próximo de Teerã se reorganizou: a Síria está fora de equação estratégica, Hezbollah e Hamas sofreram perdas de defesa, e o Iraque reconfigura-se. O Oriente Médio mudou, refletindo novos cenários de dissuasão.
Mesmo com encontros entre líderes israelenses e norte-americanos, as negociações lideradas pelo Secretário do Conselho de Segurança Nacional persiste em focar principalmente o tema nuclear. Há dúvidas sobre a disposição de Washington de sustentar um conflito prolongado na região.
Risco e incerteza
O dilema envolve quem cederá primeiro: Teerã, que encara a mesa de negociações como meio de solução, ou Washington, que impõe condições para restringir mísseis e atividades regionais. A incerteza permanece sobre o timing e o desfecho.
A economia política interna de Teerã também influencia. Grupos diferentes discutem o peso de confrontos externos versus estabilidade doméstica, o que molda as opções de resposta a pressões externas.
Conclusão sem fechamento
O cenário sugere que o jogo de poder entre EUA e Irã continua, com cada parte buscando ganhos estratégicos sem recorrer a um rompimento imediato. A compreensão mútua ainda depende de como cada lado lê o tempo e a disposição da outra parte.
Entre na conversa da comunidade