- Na reta final da vitória de Sanae Takaichi, dezenas de contas ligadas a uma campanha de desinformação chinesa atacaram suas posições conservadoras e linhas duras com a China.
- Trinta e cinco contas no X e nove canais no Tumblr integram uma rede maior de pelo menos trezentos e vinte e sete perfis, que divulgavam–alegações de corrupção e apresentavam Takaichi como ilegítima e belicosa.
- A campanha foi identificada como parte de operações de influência chinesas que também miraram Estados Unidos, Filipinas e América Latina, segundo a Fundação para Defesa da Democracia (Foundation for Defense of Democracy).
- O gabinete de Takaichi afirmou estar ciente de contas estrangeiras suspeitas e classificou o caso como ameaça à segurança nacional, defendendo contramedidas rápidas.
- Analistas associam o grupo às operações Spamouflage ou Dragonbridge, com histórico de ações pró-China; a rede também atacou o ex-presidente dos EUA e outros países da região, além de lideranças e organizações internacionais.
O gabinete da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi tomou conhecimento de uma operação de influência estrangeira nas redes sociais voltada para as eleições no Japão, segundo um instituto americano de pesquisa em segurança nacional. O foco central foi desqualificar Takaichi e contrariar sua postura conservadora e firme com a China, nos dias que antecederam a vitória eleitoral.
A ação envolveu dezenas de contas no X (antigo Twitter) e nove canais no Tumblr, segundo a análise. Elas promoviam acusações de corrupção e apresentavam a líder como ilegítima e belicista, sugerindo que seria uma líder apoiada por cultos e propensa a levar o país à guerra. A configuração é descrita pela pesquisadora Maria Riofrio, do Center on Cyber and Technology Innovation, da Foundation for Defense of Democracies (FDD).
Ao todo, a FDD mapeou uma rede de pelo menos 327 contas em várias plataformas, com atuação que se estende desde dezembro ou antes. O objetivo declarado é influenciar políticas domésticas no Japão, nos Estados Unidos, nas Filipinas e na América Latina, apontam os autores do estudo.
A assessoria de Takaichi afirmou ter ciência de contas estrangeiras suspeitas ligadas às eleições japonesas. Em nota, o gabinete destacou tratar-se de uma ameaça à segurança nacional e à lisura do processo democrático, cobrando medidas rápidas de resposta.
A embaixada chinesa em Washington contestou a análise da FDD. O porta-voz Liu Pengyu disse que o governo chinês se opõe a contas falsas e a táticas de desinformação, pedindo que as fontes não façam acusações sem fundamento.
A pesquisadora Riofrio identificou o conjunto mais reciente como um cluster com narrativas pró-China e com mensagens que compartilham hashtags e formatos similares. Segundo ela, o grupo faz parte de operações informativas de longa data, conhecidas como Spamouflage ou Dragonbridge.
Mesmo com o engajamento baixo, o conteúdo chega aos feeds e é potencialmente amplificado por algoritmos. Em um exemplo, uma publicação que acusava Takaichi de cultuismo teve poucos likes, mas mais de mil visualizações.
A análise demonstra que há capacidade de interferência de Pequim nas eleições e nos assuntos internos do Japão, segundo Riofrio. O estudo aponta que o cluster opera difusamente contra diferentes alvos, incluindo aliados dos Estados Unidos, ao longo do tempo.
A FDD, organização sem fins lucrativos sediada em Washington, atua no fortalecimento da segurança dos EUA e na redução de ameaças de adversários a nações livres. O relatório completo reúne dados de diferentes frentes de desinformação.
Outros ataques envolvendo Trump e a região
Relatórios de veículos locais indicaram outras operações envolvendo o Japão, com o objetivo de influenciar o cenário político no exterior próximo. Parte das contas mapeadas pelo estudo atacou o presidente americano Donald Trump, atribuindo a ele políticas de drogas e fronteiras que, segundo os autores, agravariam a crise de fentanyl nos EUA.
Seis contas do grupo, com menos de 10 seguidores cada, atingiram centenas de curtidas, retuítes e respostas, além de aproximadamente 18 mil visualizações até 12 de fevereiro, segundo Riofrio. Uma das páginas, chamada FentanylFreeA, criada em dezembro de 2025, parece imitar campanhas de órgãos norte-americanos anti-drogas.
Não houve resposta imediata da Casa Branca ou da Drug Enforcement Administration aos pedidos de comentário sobre as ações. As operações, associadas aos nomes Spamouflage e Dragonbridge, estão ativas desde pelo menos 2017 e já atingiram diversos públicos globalmente.
Uma porta-voz do Google, responsável pela Threat Intelligence Group, disse que Dragonbridge é uma das operações de informação pró-República Popular da China mais prolíficas até o início de 2026, destacando o foco em lideranças políticas da região, incluindo Japão e Taiwan, além de China, Vietnã, Índia e Filipinas.
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