- Investigação do Guardian aponta que mais de 263.000 itens de restos humanos estão em 241 museus, universidades e órgãos locais no Reino Unido, entre esqueletos, crânios, múmias e outras partes do corpo.
- Aproximadamente 37.000 itens têm origem conhecida no exterior, muitos vindos de antigas colônias britânicas; a proveniência de milhares permanece incerta.
- Cerca de 63% dos restos vêm do Reino Unido; o restante vem de África, Ásia, Oceania e Américas, coletados muitas vezes durante o período colonial sem o consentimento das comunidades envolvidas.
- O relatório gerou críticas a políticos e especialistas, com calls para maior transparência, retorno de restos aos povos de origem e financiamento para capacitação, pesquisa e repatriação.
- Especialistas destacam necessidade de legislação e de um registro nacional de restos humanos, citando que o Museum Natural History (Natural History Museum) tem a maior coleção não europeia, com histórico de devoluções já realizadas.
O Guardian revelou, baseando-se em solicitações de liberdade de informação, que museus, universidades e autoridades locais do Reino Unido mantêm uma massa de restos humanos que ultrapassa 263 mil itens em 241 instituições. Entre os itens estão esqueletos, crânios, ossos, múmias e partes de corpo. A origem de aproximadamente 37 mil desses materiais é estrangeira, em especial de antigas colônias britânicas, enquanto a proveniência de muitos outros permanece incerta.
A investigação aponta que cerca de 63% dos restos são de origem britânica, oriundos principalmente de escavações arqueológicas. Restos de África, Ásia, Oceania e Américas somam dezenas de milhares, incluindo mais de 11,8 mil itens africanos, 9,5 mil asiáticos e 3,2 mil da Oceania. Muitas peças foram coletadas durante o período colonial, muitas vezes sem consentimento.
Meghan Backhouse, presidente do Museum Ethnographers Group, afirmou que o número expressivo de restos é motivo de preocupação e reflete origens coloniais. Ela destacou a necessidade de devolver itens a comunidades, bem como de financiamento para treinamento, pesquisa e processos de repatriação.
Origens e dilemas éticos
A maioria dos restos permanece sem vínculo claro com comunidades de origem, o que dificulta procedimentos de restituição. Entidades como o Manchester Museum realizam consultas públicas e envolvem comunidades egípcias da diáspora para discutir decisões sobre a exibição e o destino dos artefatos.
Especialistas destacam que decisões sobre exibição devem considerar a dignidade dos povos de origem e dos antepassados. O custo de cuidados, documentação adequada e restituição é visto como parte de um movimento global por transparência e revisão ética no tratamento de restos humanos em museus.
Propostas de mudança regulatória
A investigação intensifica o debate legislativo no Reino Unido. Parlamentares e acadêmicos defendem a criação de um registro nacional de restos humanos em coleções museológicas e regras mais claras sobre repatriação. A legislação atual, principalmente a Human Tissue Act de 2004, permite a retenção de partes corporais com mais de 100 anos sem consentimento, o que tem sido alvo de críticas.
O Natural History Museum, que abriga a maior coleção de restos não europeus do país, reconhece o legado imperial de suas coleções e já anunciou a devolução de cerca de 580 itens a países como Austrália, Zimbábue e EUA. A instituição afirma manter disposição para repatriar materiais ligados a comunidades que solicitarem.
Caminhos futuros
A discussão envolve comunidades de descendência, museus e autoridades públicas. O objetivo é promover práticas curatórias mais abertas, responsáveis e centradas nas comunidades afetadas, com maior transparência sobre o que é mantido e por quê.
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