- A União Europeia adiou pela segunda vez a entrada em vigor da EUDR, lei que visa rastrear produtos ligados ao desmatamento na cadeia de suprimentos.
- A deputada Delara Burkhardt, negociadora do grupo Socialistas e Democratas, afirma que os atrasos são políticos, impulsionados por setores industriais e florestais contrários à responsabilidade exigida pela EUDR.
- Oposição cresce sobretudo de indústrias de óleo de palma e borracha; críticas também vieram dos EUA e de países como Malásia e Indonésia, com foco especial na exigência de geolocalização das áreas de origem.
- O adiamento pode colocar a regulamentação em “limbo”, desincentivando investimentos em transparência de cadeias produtivas já realizados, e até colocar em risco a aprovação futura da lei.
- Burkhardt defende a EUDR como necessária para isonomia no mercado, proteção de florestas e sustento de produtores, mantendo a luta para que a regulação entre em vigor.
O Parlamento Europeu discuteu a regulamentação de rastreabilidade de desmatamento, conhecida como EUDR, que teve dois adiamentos desde 2023. A medida nasceu para impedir que produtos ligados ao desmatamento entrem no mercado único da UE, pressionando empresas a verificar a origem de commodities como cacau, café, óleo de palma e borracha.
Segundo Delara Burkhardt, eurodeputada alemã e principal negociadora do grupo dos Socialistas e Democratas, os atrasos são políticos, não técnicos. A parlamentar aponta pressão de setores industriais e do setor florestal dentro da UE, que não se sentem preparados para as exigências da lei, abrindo espaço para rever o texto existente.
A entrevista ocorreu em Estrasburgo, França, no Parlamento Europeu. Burkhardt lidera a negociação da EUDR pelo seu grupo e diz que quem empurra o adiamento representa o status quo, o que pode reduzir a ambição climática da UE e favorecer empresas menos comprometidas com a rastreabilidade das cadeias de suprimentos.
Ela aponta que setores como palma de óleo e borracha têm apresentado maior resistência, assim como determinados países de origem, incluindo México, Malásia e Indonésia, que teriam exercido pressão contra a norma. A crítica central é de que a lei imporia padrões sobre produtos que entram no mercado europeu.
A dirigente explica que a oposição não se resume a questões técnicas. A tensão envolve a necessidade de dados de geolocalização das lavouras, o que é visto como burocracia excessiva por alguns atores, mas Burkhardt sustenta esse requisito como essencial para combater o desmatamento.
Sobre o que mudou com o órgão regulador, ela afirma que o debate público preservou direitos de produtores e de ambientais, mas o adiamento repetido impede que grandes investimentos em transparência ganhem retorno. O risco levantado é de que empresas já avançadas na conformidade fiquem em desvantagem em um cenário de indefinição.
A parlamentar ressalta impactos sociais e ambientais mais amplos. O desmatamento está ligado a violações de direitos de posse da terra e afeta comunidades locais, além de agravar riscos climáticos. Ela descreve a EUDR como instrumento para alinhar o mercado único a padrões de sustentabilidade.
Quanto ao futuro da legislação, Burkhardt admite preocupação com a possibilidade de a EUDR nunca entrar em vigor. Ela afirma que, sem clareza, empresas podem adiar investimentos em rastreabilidade, prejudicando agricultores, florestas e países produtores que dependem de previsibilidade regulatória.
A dirigente confirma que a pressão pelo adiamento tem origem ampla, incluindo agricultores e o setor madeireiro. Mesmo diante de resistência, ela reafirma a necessidade de aplicar regras de forma igualitária para manter o funcionamento do mercado interno e um ambiente de competição leal.
Perguntada sobre a experiência europeia, Burkhardt afirma que a União enfrenta um período de crise econômica e tensões geopolíticas que fortalecem a oposição a políticas ambientais. Ela classifica esse movimento como uma batalha cultural contra políticas climáticas, não apenas uma disputa setorial.
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