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EUA e Irã: entenda as raízes do conflito histórico e as camadas por trás da rivalidade

Com embates datados desde a década de 1950, a tensão entre as duas nações escalou ainda mais durante o segundo mandato de Trump.

Foto: Freepik

Nas últimas semanas, a guerra entre EUA e Irã mobilizou o mundo todo. A quase um mês desde o início do conflito, que se iniciou em 28 de fevereiro, com bombardeios da nação americana junto com Israel contra o território iraniano. Entre as justificativas para o início do conflito, uma das principais foi a negociação […]

Nas últimas semanas, a guerra entre EUA e Irã mobilizou o mundo todo. A quase um mês desde o início do conflito, que se iniciou em 28 de fevereiro, com bombardeios da nação americana junto com Israel contra o território iraniano.

Entre as justificativas para o início do conflito, uma das principais foi a negociação para limitar o programa nuclear iraniano, visto por Washington como um fator que pode ampliar o poder de fogo de um adversário histórico, apesar de Teerã afirmar que o projeto tem fins pacíficos.

O governo também sustenta que a medida busca proteger interesses e tropas dos EUA, além de aliados na região. A Casa Branca já mencionou querer conter um “regime perigoso” e evitar uma nova escalada no Oriente Médio.

As raízes da rivalidade entre os países remontam desde a década de 1950 e envolvem não apenas divergências ideológicas, mas também religiosas.

A linha do tempo da inimizade histórica de EUA e Irã

A rivalidade entre os dois países se iniciou quando a relação passou de uma parceria estratégica com o Irã monárquico, visto como um aliado contra a União Soviética, para uma hostilidade ideológica após a criação da República Islâmica.

Em 1953, o Irã sofreu um golpe de Estado na Operação Ajax, articulada pela CIA e pelo serviço de inteligência britânico, o MI6. 

O plano derrubou o governo e fortaleceu a monarquia, com a ascensão do Xá, título dado a monarcas que governaram a Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, além de abrir espaço para um gabinete mais alinhado aos interesses de Washington e Londres.

Depois disso, a Revolução de 1979 ampliou ainda mais o conflito. A ocupação da embaixada americana em Teerã e a crise dos reféns provocaram uma ruptura política e simbólica, além de encerrar as relações diplomáticas formais entre os dois países.

Com o passar dos anos, a hostilidade entre os dois países se refletiu em conflitos indiretos e em incidentes no Golfo Pérsico. 

Em 1988, a Operação Praying Mantis foi uma grande ação naval dos EUA contra alvos iranianos, descrita pela Marinha americana como retaliação após um navio dos EUA ser atingido por uma mina.

Pouco depois, houve o abate do voo 655 da Iran Air por um navio americano, que se tornou um trauma no Irã e um símbolo de impunidade dos americanos. 

A partir dos anos 2000, o confronto passou a ganhar força em torno do tema do terrorismo. O Oriente Médio já estava com a imagem abalada no cenário internacional após os ataques de 11 de setembro, realizados pela Al-Qaeda.

Em 2002, o então presidente George W. Bush colocou o Irã no discurso do “eixo do mal”, ao tratar o país como uma ameaça ligada ao terrorismo e a armas de destruição em massa. 

Em 2006, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 1737 e exigiu que o Irã suspendesse atividades consideradas sensíveis ligadas à proliferação nuclear. O texto também impôs restrições a materiais e tecnologias usados no enriquecimento, além de determinar o congelamento de ativos de pessoas e entidades listadas.

Isso ampliou o alcance do conflito. A disputa deixou de ser apenas entre Washington e Teerã e passou a fazer parte de um processo formal dentro do sistema da ONU.

Mais tarde, autoridades dos EUA anunciaram e levaram à Justiça um suposto plano para assassinar o então embaixador da Arábia Saudita em Washington. O caso foi atribuído a forças ligadas à Força Quds, braço de operações externas da Guarda Revolucionária do Irã. 

O episódio reforçou a percepção de que a ameaça atribuída ao Irã ia além dos EUA e virou munição política para novas punições, além de alimentar a pressão por classificações de órgãos iranianos como terroristas em outros países.

Em 8 de maio de 2018, o governo Trump retirou os EUA do Plano de Ação Conjunto Abrangente (JCPOA), acordo criado para monitorar o programa nuclear iraniano e manter seu caráter pacífico. A saída americana fechou o principal canal diplomático entre as duas nações sobre o tema nuclear e aumentou a tensão no relacionamento.

Em 2020, a relação voltou a escalar depois que os EUA mataram Qasem Soleimani, comandante da Força Quds, em um ataque em Bagdá. Washington disse que a ação foi defensiva, mas o episódio virou um dos choques diretos mais graves entre os dois países naquele período e elevou o risco de uma escalada maior, perto de uma “quase guerra”.

Por fim, uma das últimas escaladas antes do impasse no acordo nuclear em 2026 veio da guerra entre Israel e Irã. Entre 13 e 24 de junho de 2025, Israel atacou alvos militares e estruturas ligadas ao programa nuclear iraniano, e o Irã respondeu com mísseis e drones contra Israel, o que levou a crise a um patamar de confronto direto, tratado como guerra aberta.

Os EUA participaram do conflito como principal aliado de Israel e, em parte, com ações diretas contra alvos ligados ao programa nuclear iraniano. A combinação de ataques em território iraniano, a resposta contra Israel e o envolvimento americano alimentou uma espiral de retaliações.

O apoio de Irã a organizações terroristas

Quando se fala do poder do Irã e de sua influência no Oriente Médio, o principal ponto passa pelo apoio a aliados armados fora do próprio território. Em outras palavras, Teerã financia e sustenta grupos apontados por países ocidentais como terroristas, como o Hamas.

O regime iraniano se apresenta como líder de uma “frente de resistência” contra Israel e contra o que chama de dominação ocidental. Mesmo com diferenças religiosas e políticas, como o fato de o Hamas ser sunita e o Irã, xiita, o inimigo em comum aproxima os dois lados quando convém.

Os principais motivos para essas alianças terroristas com o país do oriente médio incluem a criação de “camadas de proteção” longe das fronteiras do Irã. Em vez de esperar um ataque dentro do próprio território, Teerã aposta em aliados no Líbano, em Gaza, no Iraque, na Síria e no Iêmen para dificultar ações de Israel e dos EUA e aumentar o custo de um confronto.

Esses grupos também mantêm pressão constante sobre Israel e sobre a presença militar dos EUA na região. Para o Irã, eles funcionam como uma “alavanca”, onde quando a tensão sobe, aliados podem atacar interesses israelenses e bases ou rotas ligadas aos americanos, sem que Teerã entre de imediato em uma ofensiva direta.

O apoio não vem só através de dinheiro, embora ele exista. Em geral, esses financiamentos incluem:

  • Treinamento, armas, tecnologia e logística, muitas vezes ligados à atuação da Força Quds.
  • Redes financeiras indiretas com intermediários, empresas de fachada, casas de câmbio e rotas de transferência difíceis de rastrear.
  • O uso de “caridade” como cobertura, já que o Tesouro dos EUA já descreveu casos de entidades apresentadas como humanitárias que, segundo suas apurações, financiavam o braço militar do Hamas.

O confronto Oriente Médio x Ocidente

A rivalidade entre EUA e Irã também se reflete em uma disputa mais ampla no Oriente Médio, travada por atores da região contra o Ocidente marcada por raízes ideológicas, religiosas e históricas.

A disputa também tem raízes antigas, ligadas ao período colonial e ao que veio depois dele. Potências estrangeiras interferiram na região, e isso alimentou brigas por soberania, recursos e identidade política.

A questão palestina virou um ponto central neste meio. Documentos como a Declaração Balfour, o Mandato Britânico na Palestina e a proposta de partilha da ONU em 1947 são lembrados até hoje como símbolos de decisões tomadas de fora para dentro, com impacto direto na vida e no território de quem vivia ali.

A criação do Estado de Israel em 1948, com a declaração de independência, e as guerras que vieram depois consolidaram a ideia, em parte do mundo árabe, de que o Ocidente ficou ao lado de Israel e ignorou o que aconteceu com os palestinos. Isso reforçou a sensação de expulsão e humilhação, alimentou ciclos de violência e tornou a identidade política na região ainda mais marcada pelo conflito.

Durante a Guerra Fria, o Ocidente, principalmente os EUA, passou a ter um papel central na segurança do Oriente Médio, ocupando parte do espaço que antes era mais de Reino Unido e França. O interesse envolvia o petróleo, a disputa com a União Soviética e a proteção de rotas marítimas estratégicas.

No caso do Irã, segurança e energia sempre andaram junto com a política interna. Para parte da população, a interferência externa e o apoio a governos aliados foram vistos como uma forma de tirar do país o direito de decidir o próprio caminho, e isso virou combustível para discursos anti ocidentais e para movimentos revolucionários e islamitas, mesmo com agendas diferentes.

A religião em meio a conflito

A disputa entre o Oriente Médio e o Ocidente também tem uma forte camada religiosa, alimentada pela sensação de choque entre valores e identidades das duas regiões. 

Com o tempo, EUA e Israel viraram símbolos do “Ocidente” para muitos grupos e governos do Oriente Médio, não só pelo histórico de guerras e intervenções, mas também pela disputa de ideias e projetos de poder.

Isso aparece em pontos como o apoio do Ocidente a Israel. Para muitos na região, esse alinhamento se soma ao trauma palestino e às guerras e ocupações que marcaram a política local, reforçando a ideia de que Israel se aproximou mais do Ocidente do que do Oriente Médio.

Além disso, bases militares, sanções e pressão econômica costumam ser vistos como uma forma de tutela do Ocidente sobre países do Oriente Médio. 

No discurso de movimentos islamistas e de grupos alinhados ao Irã, a narrativa é a de que o Ocidente humilha, manda e ocupa, enquanto as nações da região resistem, e é aí que a religião ganha espaço como ferramenta de mobilização e como parte central do conflito.

O Oriente Médio também abriga Jerusalém e outros lugares sagrados, por isso qualquer crise entre Israel e Palestina ganha rapidamente uma dimensão religiosa e mexe com sentimentos que vão além da política.

A ideia de “resistência” do regime iraniano mistura nacionalismo e linguagem religiosa para justificar sua política externa e sustentar sua rede de aliados.

Dentro desse contexto aparece a figura do aiatolá. O termo é um título de alto escalão no islamismo xiita, o segundo maior ramo do Islã, e tem peso principalmente no Irã.

Após a Revolução de 1979, o líder supremo, um aiatolá, passou a ser a principal autoridade política e religiosa do Irã, com influência direta sobre as Forças Armadas e as grandes decisões do país. Na prática, a estrutura do Estado coloca o clero no topo do poder.

Essa autoridade se baseia na doutrina do Velayat e Faqih, ou “tutela do jurista islâmico”. Ela defende que um clérigo deve atuar como guardião do Estado e ter a palavra final sobre o rumo político do país.

Em momentos de crise, a decisão de escalar ou conter ações militares costuma passar por esse núcleo de poder, junto da Guarda Revolucionária, um braço das Forças Armadas do Irã. Essa estrutura está ligada à lógica do regime e mistura estratégia de Estado com uma forte carga religiosa nas decisões.

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