- O bloqueio do Estreito de Ormuz favorece a Rússia, que se posiciona como fornecedora alternativa de fertilizantes, setor em que o país é grande exportador.
- Moscou usa o acesso a fertilizantes como pressão para obter flexibilização de sanções ocidentais, mirando Sul Global, EUA e Europa.
- Especialistas comparam a estratégia à “diplomacia das vacinas” da covid-19, em que subsídios ou suprimentos foram usados para ganhos políticos, não apenas logísticos.
- Limitações russas existem: funcionamento parcial de infraestruturas (duto Togliatti–Odessa) e produção afetada por ataques, o que restringe aumentos de exportação.
- Na Europa, a Rússia tenta also influenciar políticas ao apresentar opções com baixo teor de cádmio e buscar pressões para flexibilizar restrições, sob a justificativa de crise alimentar global.
O bloqueio do Estreito de Ormuz transformou-se em oportunidade para a Rússia, que utiliza o acesso a fertilizantes como moeda de negociação. O corrido envolve a interdição de passagem de navios, que afeta cerca de um terço dos fertilizantes marítimos globais. O Kremlin busca mover apoio internacional para flexibilizar sanções ocidentais.
A estratégia russa passa pela lógica da diplomacia dos fertilizantes, conforme analisa o The Conversation. A Rússia figura como segundo maior produtor e principal exportador do insumo, com rotas alternativas que não passam pelo estreito. O objetivo é obter respaldo político e econômico, inclusive junto a EUA e Europa.
No eixo sul-global, governos do Golfo liderados por Irã, Catar e Arábia Saudita contribuíram com grandes volumes de ureia entre 2023 e 2025, ajudando grandes compradores como Brasil, Austrália e Nova Zelândia. A elevação dos preços do gás natural também eleva o custo da ureia.
Levantamento do Conselho Europeu de Relações Exteriores aponta que, desde a invasão da Ucrânia, a Rússia diversifica rotas de exportação para reduzir dependência de mercados ocidentais. Em 2025, empresas russas forneceram parcela relevante das importações por grandes economias agrícolas.
No fim de março, o vice-secretário do Conselho de Segurança russo indicou que o país está disposto a enviar fertilizantes ao Sul Global, condicionando o apoio a alianças lideradas pela Rússia, como BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai. A condição gera críticas sobre uso político dos insumos.
Design na pandemia
O estudo refere que a tática não é nova para Moscou. Durante a pandemia, a Rússia oferecia a vacina Sputnik V em troca de acordos políticos ou econômicos, uma prática que teve adesões restritas em alguns países, mas serviu para projetar a imagem de socorro ao Sul Global.
Na América Latina, exemplos de condicionamento associados a investimentos russos apareceram na Bolívia, com ligações entre entregas de vacinas e projetos de infraestrutura, ainda que a qualidade e a confiabilidade dos dados tenham gerado dúvidas. Mesmo assim, alguns países não condenaram a invasão da Ucrânia nas Nações Unidas.
Limitações reais
Entretanto, especialistas ressaltam que a capacidade de Moscou aumentar significativamente as exportações de fertilizantes é limitada. Dutos críticos permanecem danificados ou fora de operação, e ataques a fábricas russas reduzem a produção. Recentemente, o governo impôs limites de exportação para evitar escassez interna.
Essa prática de oferta condicionada também visa pressões ao Ocidente. Nos EUA, houve suspensão de sanções a produtoras bielorrussas de potássio. Na UE, há debate sobre cadmio presente em fertilizantes marroquinos e possibilidades de influenciar políticas de aquisição com base em questões sanitárias.
Impacto global e cenário de Ormuz
Especialistas destacam que o destino de Ormuz continua incerto, mas a diplomacia dos fertilizantes já serve para consolidar a narrativa de que o Sul Global enfrenta dificuldades alimentares sem flexibilização de sanções. A leitura é de que Moscou busca ganhos estratégicos mesmo com incertezas logísticas.
O conjunto de ações sugere uma estratégia de longo prazo para a Rússia, que utiliza insumos vitais para ampliar influência política e econômica, ao mesmo tempo em que expõe fragilidades da cadeia global de fertilizantes em um cenário de tensões geopolíticas persistentes.
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