- Flávia Medeiros, 29, foi exonerada do Ministério das Relações Exteriores após contestação de sua autodeclaração racial.
- Ela havia tomado posse como oficial de chancelaria há dois meses e a banca de heteroidentificação afirmou que seus traços indicavam pele clara e cabelo liso.
- A decisão judicial ficou em disputa: a primeira instância reconheceu inconsistências e determinou a posse, enquanto a segunda anulou a ordem e manteve a nulidade, resultando na exoneração.
- O Itamaraty e o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção não responderam; a assessoria do instituto informou que os esclarecimentos ocorrem nos autos da ação.
- Flávia sustenta que não há parâmetro objetivo para traços geradores de discriminação e cita a ADC 41 do Supremo Tribunal Federal, que reconhece cotas raciais, defendendo critérios mais transparentes.
Flávia Medeiros, internacionalista de 29 anos, foi exonerada do Ministério das Relações Exteriores nesta sexta-feira, 22, após a banca de heteroidentificação contestar sua autodeclaração racial. Ela havia ocupado o cargo de oficial de chancelaria há dois meses, após aprovação em concurso.
A ex-candidata diz não reconhecer as regras usadas pela comissão para definir quem vive racismo. O Itamaraty chegou a reconhecê-la etnicamente ao nomeá-la para o Comitê Étnico-Racial da instituição, como secretária-adjunta. Ela afirma ter deixado Vitória para trabalhar em Brasília, arcando com despesas próprias.
Segundo Flávia, a banca avaliadora usou traços “geradores de discriminação” para rejeitá-la, sem parâmetro objetivo claro. O caso envolve o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos, responsável pela banca. Os recursos administrativos foram esgotados e a Justiça Federal já teve decisões distintas.
Controvérsia sobre a heteroidentificação
A primeira instância reconheceu inconsistências na decisão da comissão e determinou a posse de Flávia. A segunda, porém, anulou a decisão anterior e limitou-se a assegurar a continuidade no certame, resultando na nulidade que levou à exoneração. O CBPES não respondeu aos pedidos de contato da Folha e do portal G1.
O Itamaraty também não respondeu aos contatos feitos pela reportagem até o fechamento desta edição. Flávia mantém que a interpretação da heteroidentificação é equivocada e defende que não há parâmetros objetivos para delimitar traços raciais. A candidata cita o STF e a ADC 41 como referência para cotas raciais em concursos.
A internacionalista ressalta ainda que o ingresso no Itamaraty foi uma conquista pessoal, fruto de planejamento de 11 anos de estudos para concursos. Ela afirma manter a esperança de recondução, mas enfrenta dificuldades financeiras decorrentes da exoneração e da mudança para Brasília.
Flávia defende que procedimentos devem ser mais claros, transparentes e alinhados ao Estatuto da Igualdade Racial, para evitar discriminação e disputas entre grupos dentro da população negra. Ela afirma que a subjetividade na avaliação eleva insegurança jurídica.
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