- Conflitos entre dissidentes das FARC Calarcá e Mordisco, desde 26 de maio, deixaram pelo menos 48 mortos, pessoas ligadas a Mordisco, em San José del Guaviare, na Amazônia colombiana.
- A violência ocorre em uma área estratégica para economias ilícitas, ligada ao corredor Tomachipán-Cumare, que facilita o transporte de coca, armas e explosivos entre rios Guaviare e Inírida.
- Famílias indígenas Jiw e Nukak ficaram em situação de deslocamento forçado; cerca de 10 famílias Jiw chegaram a San José del Guaviare em 27 de maio, após atravessarem o rio Guaviare.
- Autoridades criaram um corredor humanitário para transferir corpos e facilitar deslocamentos, com participação de autoridades locais, Ministério do Interior, Defensoria Pública, OEA, ONU e Cruz Vermelha.
- A violência agrava a crise humanitária na região, já reconhecida pela Corte Constitucional como área de risco para povos indígenas Nukak e Jiw, com impactos sobre direitos humanos e proteção internacional.
O conflito na Amazônia colombiana voltou a explodir em San José del Guaviare, capital do departamento de Guaviare. Desde o fim de maio, choques entre dissidentes das FARC, liderados por Calarcá, e pelo grupo de Mordisco, deixaram ao menos 48 mortos e deslocaram famílias inteiras. A luta ocorre numa área estratégica para o tráfico de drogas e outras economias ilícitas ao longo do río Guaviare.
A ofensiva entre as facções ocorre perto da Barranco Colorado, onde o território serve de elo entre diferentes rotas fluviais e trilhas clandestinas. A operação envolve disputas por controle territorial, extorsão, tráfico de drogas e acesso a áreas de plantio de coca, fortalecendo redes ilícitas na região.
Segundo o ministro da Defesa, Pedro Sánchez, os confrontos entre Mordisco e Calarcá ocorreram em San José del Guaviare, a mais de 140 quilômetros da zona urbana, envolvendo confrontos por domínio de áreas de criminalidade organizada. Entre as vítimas estariam membros da facção liderada por Mordisco, incluindo jovens recrutados na Cauca.
Situação humanitária e deslocamentos
Desde 26 de maio, comunidades Nukak e Jiw da Reserva Barranco Colorado buscaram abrigo fora de seus territórios. Em maio, moradores de Cumare relataram que famílias fugiram para áreas urbanas, com relatos de deslocamentos forçados e restrições de mobilidade para evitar o fogo cruzado. Um indígena local, que pediu anonimato, descreveu o medo de sair de casa.
Em 27 de maio, cerca de 10 famílias Jiw chegaram a San José del Guaviare, vindas de Mapiripán, Meta, abrindo um centro esportivo para abrigos temporários. Autoridades locais afirmaram que a crise humanitária exige apoio da prefeitura, do governo nacional e de organismos internacionais. Não está clara a extensão completa dos deslocamentos até o momento.
Rota estratégica e impactos econômicos
A estrada Tomachipán-Cumare, mostrada em investigações, liga as reservas Nukak e Barranco Colorado até áreas onde operam os grupos dissidentes. A via facilita transporte de coca, armas e explosivos, consolidando o domínio territorial e o controle de rotas para o Pacífico e o leste amazônico. A presença de culturas de coca perto da trilha aumenta a vulnerabilidade das populações locais.
Especialistas destacam que dominar esse corredor permite atuação em várias frentes: controle de comunicações entre facções, repressão de resistência e facilitação de atividades econômicas legais ligadas à pecuária e agroindústria na região. Observadores apontam que o controle dessa área funciona como um “inicio” para o alcance de Caquetá, Venezuela e outros pontos estratégicos.
Ações das autoridades e status dos corpos
No dia 28 de maio, o Exército informou ter criado uma rota social para traslado dos corpos dos 48 vítimas para uma área acordada com autoridades civis e organizações humanitárias. Oficiais destacaram o objetivo de proteger a população civil e facilitar o atendimento forense, com a participação de organismos como a Medicina Legal.
Fontes do 1º escalão disseram que, a partir de 28 de maio, houve coordenação entre a prefeitura de San José del Guaviare, a Defensoria Pública, a Missão de Organização dos Estados Americanos pela Paz na Colômbia, a ONU e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha para abrir um corredor humanitário. Os corpos chegaram ao local designado na madrugada de 29 de maio, com relatos de possíveis menores entre as vítimas.
Contexto institucional
A violência na região já foi marcada por uma crise humanitária desde 2024, com deslocamentos e violações de direitos de povos indígenas Nukak e Jiw. A Corte Constitucional incluiu 34 povos indígenas em 2009 entre os mais vulneráveis, com risco de desaparecimento físico e cultural devido aos conflitos. Autoridades locais sinalizam a necessidade de proteção e assistência contínua.
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