- Ataques xenofóbicos contra nordestinos nas redes sociais no X cresceram 821% em 2022, na comparação com 2021, segundo a SaferNet; em 2018 a alta foi de 595,5%.
- O estudo “Discursos de ódio em redes sociais” analisa 282 milhões de publicações entre julho e dezembro de 2022, com dados da SaferNet, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos e da Universidade Federal de Campina Grande.
- A pesquisa aponta que o período eleitoral costuma ampliar o discurso de ódio; as citações ao Nordeste triplicaram em outubro de 2022, no fim do pleito em que Lula venceu Bolsonaro.
- Com o STF alterando o entendimento sobre o Marco Civil da Internet, plataformas podem ser responsabilizadas por conteúdos de terceiros, o que pode reduzir ataques em 2026, mas exige moderação mais eficaz.
- Especialistas ressaltam risco de uso de inteligência artificial generativa para criar vídeos, áudios e textos falsos, considerado o maior desafio para as eleições, e destacam impacto educativo de punições anteriores.
O discurso de ódio contra nordestinos ganhou força nas redes sociais durante anos eleitorais, aponta estudo realizado a partir de dados da SaferNet. O levantamento analisa o aumento de ofensas xenófobas em 2022 e abre o debate sobre o que pode mudar em 2026.
Os pesquisadores da UFSCar e da UFCG analisaram 282 milhões de publicações no X entre julho e dezembro de 2022. Entre as palavras associadas ao termo nordestino, houve incremento de termos pejorativos ao longo do segundo semestre eleitoral.
O estudo mostra que ataques como pobre, burro, analfabeto e ingrato se intensificaram na rede. Em 2022, o aumento foi de 821% ante 2021, segundo a SaferNet. Em 2018, ano eleitoral anterior, o crescimento já havia sido de 595,5%.
Contexto institucional
A próxima eleição presidencial ocorre em um cenário inédito: o STF passou a interpretar o artigo 19 do Marco Civil da Internet, ampliando a responsabilização das plataformas por conteúdos de terceiros.
Especialistas afirmam que, mesmo com a mudança, as ofensas devem persistir, mas o novo entendimento, aliado a punições anteriores, pode reduzir a frequência de ataques mais explícitos.
Para o pesquisador Eanes Pereira, da UFCG, a principal preocupação é o uso de inteligência artificial para disseminar discursos de ódio com alto grau de fidelidade.
> A IA gerativa pode criar vídeos, áudios e textos que enganam grande parte da população, destaca Pereira.
Impactos observados
Dados da SaferNet indicam que 2022 foi o terceiro ano eleitoral consecutivo com crescimento de crimes de ódio na internet. Além da xenofobia, houve incremento de intolerância religiosa e de misoginia.
A pesquisa, publicada na revista GEMInIS, utilizou ferramentas de processamento de linguagem natural para analisar tendências de discurso. O monitoramento aponta picos de ataques próximos às eleições.
Segundo o estudo, as citações ao Nordeste triplicaram em outubro de 2022, mês da vitória de Lula sobre Bolsonaro, frente à média mensal anterior.
Punições e mudanças esperadas
Em 2025, a Justiça do Rio Grande do Sul condenou um personal trainer por insultar nordestinos em 2022. Em 2012, outra condenação ocorreu por mensagens preconceituosas durante as eleições de 2010.
Juliana Cunha, diretora da Safernet Brasil, ressalta que punições ajudam, mas não são substituto para mudanças culturais. Ela aponta a polarização elevada em período eleitoral.
Perspectivas para 2026
Os pesquisadores defendem maior responsabilização das plataformas, com fiscalização sobre conteúdos ilegais como discurso de ódio e racismo. A moderação poderá exigir análise humana em parte das decisões.
Eles citam exemplos de medidas como desmonetização de perfis que propagam ódio, além de acompanhar a aplicação das novas regras do Marco Civil. O objetivo é reduzir danos e responsabilizar quem dissemina agressões.
Mapas e termos do ódio
O grupo Interface utilizou técnicas de PLN para mapear a relação entre a palavra nordestino e termos negativos. Entre julho e dezembro de 2022, palavras como pobre, ingrato, analfabeto e burro ganharam peso, principalmente entre setembro e outubro.
Os pesquisadores destacam que as expressões analisadas não estavam nos filtros de busca, surgindo espontaneamente na coleta, o que reforça o caráter xenofóbico do conteúdo.
Responsabilidade das plataformas
A equipe defende maior atuação das plataformas para remover conteúdos ilegais. Juliana Cunha reforça que monitoramento exige equilíbrio entre tecnologia e análise humana, com eventual desmonetização de perfis que promovem ódio.
O estudo conclui que postar ofensas não é proteção protegida pela liberdade de expressão, pois viola dignidade humana e pode configurar infração à Lei Antirracismo.
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