- Kapese, no norte do Quirín Turkana, é foco da ambição petrolífera do país, apesar de pouco ter se materializado desde a descoberta de petróleo pela Tullow Oil em 2010.
- A Tullow encerrou operações em 2020 e grande parte da infraestrutura foi desativada; moradores removem portões e coberturas para sucata, e resíduos ficam em poços de descarte.
- A Gulf Energy, que retomou o projeto em 2025, enfrenta críticas sobre danos ambientais, manejo de resíduos e falhas de governança herdadas da era Tullow.
- Em 2024, 73 moradores ingressaram na Justiça contra Tullow, o governo de Turkana e a Autoridade Nacional de Gestão Ambiental, buscando reparação e uma fiança ambiental de 284 bilhões de shillings para restauração.
- Estudos apontam contaminação de água subterrânea perto de áreas de exploração; população local teme impactos na saúde, pastoreio e acesso à água, com produção comercial prevista para começar em dezembro.
Kapese, no norte do Quênia, hoje sintetiza o atraso do país na exploração de petróleo. O vilarejo de muitas vontades, com casas tradicionais e gado solto, abriga apenas alguns poços, uma escola e a presença da Tullow Oil, que descobriu reservas na região em 2010. Operações interrompidas em 2020 deixaram pouca infraestrutura em funcionamento.
Os moradores apontam o que ficou para trás: portões removidos, cercas furtadas para sucata e lonas plásticas cobrindo áreas de descarte de resíduos. Ao se aproximar do poço Twiga, há um cheiro forte de petróleo e áreas de descarte em fila, lembrando sítios de enterro. A percepção é de legado tóxico.
Mudança de operador, mas não de problemas. A Gulf Energy, que assumiu a área em 2025, enfrenta críticas sobre danos ambientais não resolvidos, falta de governança e impactos na subsistência de pastores. Analistas afirmam que antigas falhas de Tullow ainda influenciam o presente.
Histórico de promessas não cumpridas é destacado por Enock Paule, líder comunitário, que vive entre Kapese e Lokichar. Testemunhos de moradores indicam que a exploração trouxe empregos transitórios e educação, mas terminou com desemprego e dúvidas sobre segurança ambiental.
Em 2024, 73 moradores abriram uma ação na Justiça Ambiental contra Tullow, o governo local de Turkana e a autoridade nacional de meio ambiente. Alegam danos ambientais, perdas de pecuária e requerem uma caução ambiental de 284 bilhões de shillings para restauração.
Segundo relatos, há acidentes anteriores que reforçam as preocupações. Em 2016, um jovem morreu em uma pedreira não devidamente desativada; em 2022, um policial foi morto ao tentar desativar artefatos deixados em sites de perfuração. Tais episódios alimentam o temor na comunidade.
No ambiente local, a contaminação de água preocupa pela escassez hídrica. Avaliação de 2019 apontou vazamentos de resíduos em Akuwa-1, a cerca de 100 km de Kapese, com risco de contaminação de aquíferos. Pesquisas de 2022 indicaram contaminantes em amostras de água próximas a poços.
Outros relatos apontam aumento de doenças respiratórias entre moradores e maior incidência de nódulos em mulheres, além de relatos de miscarração, dificultando comprovação devido à baixa procura por serviços formais de saúde. Falta de dados de referência complica a avaliação.
Frente à retomada, autoridades locais reconhecem falhas de monitoramento ambiental. A NEMA admite recursos limitados, o que restringe a fiscalização. Em produção comercial prevista para dezembro, ainda não foram concluídas avaliações ambientais críticas.
A falta de canais de denúncia, agravada pelo fechamento das instalações da Tullow em 2020, deixou comunidades sem vias formais para reivindicar reparos. Para líderes locais, o litígio tornou-se meio de cobrança e o principal registro de cobrança por parte de moradores.
Paralelamente, uma disputa sobre receitas e governança de terras mobiliza Lokichar. Em 2024, líderes locais contestaram a gestão de 258 milhões de shillings destinados a desenvolvimento, alegando pouca consulta e transparência.
Especialistas indicam que conflitos podem aumentar à medida que a população toma consciência de seus direitos. Pesquisadores destacam o papel de organizações da sociedade civil na mobilização por informações e participação.
O cenário atual é de expectativa e incerteza. Com a promessa de produção comercial ainda no horizonte, moradores de Turkana cobram maior transparência, responsabilização ambiental e participação efetiva em decisões que afetam suas vidas e recursos.
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