- Setenta e dois por cento dos usuários de redes sociais viram notícias que duvidaram ser falsas nos últimos seis meses; quase setenta por cento da população brasileira com dezoito anos ou mais acompanhou esse dado, e metade diz achar difícil identificar se uma notícia é falsa.
- A chamada machosfera, ecossistema de canais e influenciadores que vendem a narrativa da superioridade masculina, usa desinformação para justificar misoginia; estudo do NetLab/UFRJ com parceiros do Ministério das Mulheres analisou 137 canais no YouTube no Brasil, com bilhões de visualizações e diversas formas de monetização.
- No Brasil, oito vírgula oito milhões de mulheres, equivalentes a dez por cento da população feminina com dezoito anos ou mais, sofreram algum tipo de violência digital nos últimos doze meses.
- Mulheres em espaços de poder, como políticas, jornalistas, pesquisadoras e ativistas, são alvo de campanhas de difamação e ataques coordenados que dificultam a atuação pública.
- Liberdade de expressão não pode servir de escudo para difamação, exposição de intimidade ou ameaças; é preciso responsabilizar plataformas que lucram com o ódio e enxergar a desinformação de gênero como violência política.
O tema da desinformação aparece como uma arma contra as mulheres e, por consequência, contra a democracia. Vídeos e posts repetem afirmações como suposta natureza das mulheres para liderança, ou a ideia de que o feminismo destruiu a família, apresentadas como verdades. A diferença é a escala e a velocidade com que se propagam, se organizam e geram lucro online.
Especialistas apontam que esse conteúdo não é apenas opinião; funciona como mecanismo de normalização da misoginia e de justificação da violência. A desinformação é usada para moldar narrativas que desqualificam a participação feminina em espaços públicos. O sistema envolve produção, circulação e monetização de discursos.
Dados ajudam a dimensionar o problema. Entre 5 e 28 de junho de 2024, estudo do DataSenado mostrou que 72% dos usuários de redes sociais viram notícias que desconfiavam ser falsas nos seis meses anteriores. Metade dos entrevistados disse ter dificuldade para identificar fakenews.
Machosfera: modelo de negócios baseado em ódio
A chamada machosfera reúne canais, fóruns e influenciadores que promovem a ideia de superioridade masculina e veem o feminismo como vítima. A estratégia central é justificar a misoginia por meio de desinformação, distorção de dados biológicos e uso seletivo de textos religiosos. O objetivo é legitimar a violência.
A pesquisa do NetLab/UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, analisou 137 canais no YouTube Brasil com conteúdos de ódio, desprezo ou controle sobre mulheres. Foram examinados milhares de vídeos com bilhões de visualizações e milhões de comentários, além de diversas formas de monetização.
Impacto na vida das mulheres
Essa violência não fica apenas nas telas. No Brasil, 8,8 milhões de mulheres—10% da população feminina com 16 anos ou mais—apresentaram algum tipo de violência digital nos últimos 12 meses, segundo estudo conjunto DataSenado e Nexus, em 2025. Difamação, exposição de intimidade, ameaças e campanhas de ódio costumam levar ao silenciamento.
Mulheres que ocupam espaços de poder — políticas, jornalistas, pesquisadoras, ativistas — relatam campanhas de difamação e ataques coordenados. A hostilidade ocorre tanto dentro quanto fora de instituições, transmitindo a mensagem de que liderança não é lugar para elas.
Liberdade de expressão x violência
Ao enfrentar esse cenário, surge o argumento da liberdade de expressão. Embora seja um pilar da democracia, liberdade de expressão não pode servir de escudo para difamar, expor intimidade ou convocar ataques contra mulheres. A dignidade feminina é protegida e a misoginia é encarada como violência, não como opinião.
Caminhos para enfrentar o problema
Aceitar a desinformação como arma contra metade da população implica reconhecer o impacto político e social. Responsabilizar plataformas por lucrar com o ódio, reconhecer a desinformação de gênero como violência política e rejeitar a normalização da misoginia são passos fundamentais. A democracia depende de espaços seguros para as mulheres.
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