- A filósofa americana Sasha Mudd, atualmente na Pontifícia Universidade Católica do Chile, concedeu uma entrevista à VEJA sobre a visão dos fundadores em relação a Donald Trump.
- Ela afirma que os fundadores temiam o poder concentrado e discricionário, e que veriam em Trump um alerta sobre o risco de governar pela vontade pessoal, não pelas leis.
- Segundo Mudd, a defesa da Constituição é baseada em freios, contrapesos e normas impessoais para proteger direitos, não depender da boa vontade de quem ocupa o cargo.
- Ela sustenta que a erosão das limitações legais ao poder executivo ameaça a cidadania, pois a relação das pessoas com o Estado passa a depender da percepção de quem está no comando.
- Sobre os 250 anos da independência, a ideia é refletir sobre a distância entre os ideais de 1776 e as realidades atuais, reconhecendo avanços e críticas, especialmente diante da escravidão e de violações históricas de direitos.
A filósofa americana Sasha Mudd, hoje ligada à Pontifícia Universidade Católica do Chile, avaliou a postura de Donald Trump em relação às ideias de 1776. Em entrevista à VEJA, ela analisa como o republicano se relaciona com princípios fundacionais e com o desenho institucional dos Estados Unidos.
Para Mudd, não se pode reduzir os fundadores a uma voz única. Eles divergiam entre si e atuavam sob as limitações de seu tempo. Ainda assim, compartilham uma desconfiança histórica em relação ao poder concentrado e discricionário, algo que, segundo ela, pode aparecer de forma semelhante em Trump.
A especialista argumenta que a maior preocupação dos fundadores não era o desacordo político, mas o risco de o poder avançar segundo a vontade pessoal, sem leis gerais. A Constituição, com freios e contrapesos, foi criada para evitar esse cenário e proteger regras estáveis aplicáveis a todos.
Perspectiva histórica e alerta
Sob essa ótica, a narrativa de Trump seria vista como um sinal de alerta, não apenas como uma exceção. A figura do líder carismático que afirma agir pelo povo, ao mesmo tempo em que contorna limites institucionais, remete a episódios históricos que os fundadores conheciam bem.
Mudd sustenta que a democracia moderna depende de limites legais ao poder executivo. A erosão dessas barreiras pode alterar a relação dos cidadãos com o Estado, fazendo com que a segurança dependa da percepção dos governantes, em vez de direitos universais.
O 250º aniversário e a comemoração
Ao discutir a forma de marcar os 250 anos de independência, a filósofa sugere que a data não deve ser apenas celebração. O convite é refletir sobre a distância entre os ideais de 1776 e as realidades posteriores, reconhecendo avanços e críticas às práticas que comprometeram os princípios.
A ideia central é examinar como sustentar a governança dentro da lei e manter a igualdade perante a lei, mesmo diante circunstâncias contemporâneas. A comemoração, nesse quadro, envolve avaliação crítica das trajetórias históricas.
Contradições históricas e continuidade
A entrevista também aborda a contradição entre a escravidão, prevista na prática, e os enunciados universais de igualdade. Essa tensão, segundo Mudd, não torna a fundação irrelevante, mas a coloca como um campo de disputa que se atualiza com o tempo.
Ela aponta que movimentos posteriores—abolição, direitos civis e lutas por igualdade—recorreram à linguagem dos séculos XVIII e XIX para contestar exclusões, ampliando o alcance dos ideais originais. O legado fundacional, assim, permanece em evolução.
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