As chuvas intensas que têm apenas aliviado parcialmente o Sistema Cantareira não evitam o risco de desabastecimento em São Paulo. O complexo, que recebe água de rios da região Sul de Minas Gerais, continua no estágio crítico, com a cidade enfrentando impactos em bairros com maior vulnerabilidade social.
Especialistas batizam a situação como uma “tragédia anunciada”. A Sabesp tem dependido da interligação entre Jaguari (RJ) e Atibainha (SP) para manter o fornecimento, transferindo até 8,5 m³/s e buscando chegar a 162 bilhões de litros por ano. A medida atual funciona como contenção, mas não garante reserva segura.
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Quase 40 municípios da região metropolitana estão sob alerta pela escassez de água. O Cantareira opera com apenas 20,2% de capacidade, menor patamar desde 2014. A expectativa é de que o cenário se agrave no verão, com a população mais vulnerável recebendo água com atraso.
A Sabesp ampliou o período de redução da vazão para enfrentar perdas, que superam 30% do volume disponível. Inicialmente, a contenção ocorria por oito horas noturnas; em outubro passou para 10 horas e pode chegar a 16 horas. Comunidades em áreas altas ou periféricas podem ficar sem água por mais tempo.
Desdobramentos e críticas
A diretriz de extração máxima, adotada após a privatização parcial, tem sido alvo de críticas de especialistas. O ex-presidente da ANA aponta que a prática antecipa retiradas futuras sem garantias de chuvas, o que redunda em “apartheid hídrico” entre bairros próximos às estações e áreas mais distantes. Afirmam que há, ainda, interesse político envolvido.
A Sabesp reconhece falhas na distribuição, principalmente nos bairros mais distantes. Em resposta, foi criado o programa Reserva Certa, que instala caixas d’água em áreas de alta vulnerabilidade. Mesmo assim, as reclamações persistem em regiões da capital, Litoral e periferias, com relatos de água turva em algumas zonas.
A estatal afirma seguir regras da Arsesp e da SP Águas, mas especialistas questionam a eficácia da regulação. Ex-gestores reguladores criticam a fragilidade de fiscalização e a priorização de reajustes de tarifas sobre a preservação de estoques de segurança. No âmbito interno, há decisões sobre uso do volume morto para manter o abastecimento.
Caso a situação não melhore, testes de ativação do volume morto já estão em estudo para Jaguari e Jacareí, com previsão de operação entre março e maio. A possibilidade de racionamento mais amplo ainda é tema de debate entre técnicos e gestores do setor.
Valorizando a transparência, técnicos destacam que a solução de longo prazo passa pela reforma de infraestrutura, revisão de contratos e fortalecimento de reservas. Enquanto isso, a população segue sob cautela, com medidas de uso consciente da água e redução de perdas ainda em vigor.
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