Marcos Jank defende que a nova fronteira do agro brasileiro é definida por tecnologia, estratégia e valor. Em entrevista à Forbes Agro, ele aponta a IA como eixo central para a próxima década, impactando operação, produção, comercialização e gestão de preços. O diagnóstico vem de um especialista reconhecido no agronegócio global.
Jank, engenheiro agrônomo, mestre em política agrícola e doutor em economia empresarial, atua como professor sênior do Insper, coordenando o programa Insper Agro Global. Ele vê a transformação como mudança de ciclo, com dados orientando decisões e maior exposição a fluxos geopolíticos e insumos.
A visão é de que o Brasil construiu uma agricultura tropical competitiva ao longo de décadas, combinando ciência pública, inovação e expansão privada. Segundo o especialista, não há outro país com a dimensão do Brasil que reúna esse conjunto de tecnologias e inovações.
Essa singularidade se expressa na capacidade de produzir em ambientes tropicais com produtividade elevada e melhoria ambiental continuada. A integração de soja, milho, algodão, carne, etanol e celulose é citada como parte essencial desse modelo.
A virada digital do campo é marcada pela adoção de IA, biotecnologia, agricultura de precisão e drones. A eficiência passa a incluir a dimensão analítica, com previsões de cenários e gestão de risco mais refinada.
Na prática, a IA é vista como fator que pode influenciar desde a operação até a proteção de preços, elevando o nível de decisão por meio de dados de clima, mercado e produção. A tecnologia acompanha a evolução da biotecnologia.
Jank também destaca a necessidade de reduzir insumos, com técnicas que permitem produzir mais com menos. Soluções biológicas ganham espaço e se soma ao uso responsável de químicos, com aplicações mais localizadas.
O uso de rocha fosfática e resíduos orgânicos aparece como resposta à pressão por fertilizantes, enquanto resíduos como a vinhaça ganham utilidade como fertilizante e fonte de energia. A economia circular ganha fundamentação econômica.
Geopolítica é outro pilar da análise. China responde por cerca de 35% das exportações brasileiras e é principal parceira, ao passo que tecnologias dominadas por occidente ainda predomínio. Conflitos internacionais afetam insumos e custos.
A percepção é de que a logística continua entre os principais gargalos, com o interior do país distante dos portos e dependência do transporte rodoviário. A armazenagem também limita estratégias de comercialização.
Mesmo com ganhos, o desafio de agregar valor persiste. O Brasil representa cerca de 4% da produção global e 9% do comércio agroindustrial, segundo Jank. O potencial está em diferenciar produtos e ampliar a presença no exterior.
Os caminhos apontados passam pela capacidade de distribuição, posicionamento de produtos e maior incorporação de valor agregado na pauta exportadora. O conjunto de mudanças sugere uma equação complexa para a competitividade brasileira.
O SPIW, festival de inovação de São Paulo, reúne Jank nos dias 13 a 15 de maio, com debates que devem aprofundar a discussão sobre a nova fronteira tecnológica do agro. O evento ocorre na Mercado Livre Arena Pacaembu e na FAAP, em São Paulo.
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