Após dez anos da inauguração oficial da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, comunidades ribeirinhas e pescadores relatam impactos sociais e ambientais no Médio Xingu. O empreendimento foi inaugurado em Altamira, Pará, em 5 de junho de 2016, após décadas de debates e promessas de geração de energia.
Élio Alves da Silva, 70 anos, lembra a chegada da usina na região de Santo Antônio, em Vitória do Xingu. Ele foi um dos moradores deslocados e relata as mudanças no ecossistema local e na vida da comunidade. O projeto desviou parte do fluxo do Rio Xingu para formar o reservatório.
A memória de Silva contrasta com a realidade de 67 famílias que precisaram deixar o local. A promessa de uma vila para a comunidade não foi cumprida, e os moradores receberam apenas pequenas indenizações e moradias em áreas afastadas. A perda da base de pesca foi um dos impactos mais sentidos.
Sara Lima, moradora de Belo Monte do Pontal, em Anapu, também testemunha os efeitos. Embora não tenha sido deslocada, a família perdeu renda e segurança alimentar devido à redução de peixes no Xingu. Hoje, a água potável e a comida são menos estáveis do que antes.
Para marcar os 10 anos, várias organizações publicaram uma carta aberta defendendo povos indígenas, ribeirinhos e pescadores artesanais. A mensagem aponta agravamento de violações e destaca secas extremas em 2016, 2019, 2020, 2023 e 2024 como evidências dos impactos.
A carta cita a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que em 2025 reconheceu a obrigação de Estados lidar com a emergência climática como direito internacional. O parecer reforça proteção ambiental, reparação e soluções legais para comunidades afetadas.
Segundo a advogada Erina Gomes, do AIDA, o parecer fortalece uma queixa antiga que denuncia violação de direitos durante a construção. Ela afirma que Belo Monte é avaliada como um desastre socioambiental pela população do Xingu.
A Norte Energia, concessionária do empreendimento, afirma que a usina atende cerca de 5% da demanda anual de energia no Brasil, chegando a 16% nos horários de pico. A empresa diz já ter investido mais de R$ 8 bilhões em projetos socioambientais.
Entre os resultados citados pela concessionária estão a construção de hospitais, unidades de saúde e escolas, além de ações para comunidades indígenas. Organizações sociais, porém, argumentam que as iniciativas foram insuficientes para reparar os danos.
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