Pessoas que se apresentam como especialistas em sono infantil ajudam famílias com orientações que, segundo profissionais de assistência médica, colocam bebês em risco. A BBC News Brasil apurou e gravou consultas de consultoras de sono que não possuem formação médica, em Londres, Reino Unido.
A investigação revela que istnie uma rede de autodeclarados especialistas ativos nas redes sociais. Um deles, Alison Scott-Wright, foi filmado recomendando dormir de bruços a um recém-nascido. Em outro caso, Lisa Clegg sugeriu o uso de tecidos e toalhas no berço. Profissionais consultados pela BBC consideraram essas orientações perigosas.
Durante a apuração, a BBC filmou Scott-Wright em consulta online com uma repórter disfarçada. A reportagem simulou ser mãe de um bebê com nove semanas. Em resposta, Scott-Wright sugeriu, entre outras coisas, que o bebê poderia dormir de bruços e que gestos de diagnóstico não substituíam avaliação médica.
As informações apontam que dormir de bruços aumenta o risco de Síndrome da Morte Súbita do Lactente (SMSL). O NHS (serviço público de saúde britânico) orienta colocar o bebê de costas para dormir, em espaço próprio, com colchão firme e plano, nos primeiros 12 meses de vida.
A esse conjunto de orientações somam-se outros relatos: ter toalhas ou tecidos soltos no berço aumenta riscos de asfixia e superaquecimento, segundo organizações como The Lullaby Trust. Profissionais entrevistadas pela BBC classificaram as práticas como potencialmente letais.
Entre os casos citados, mães relataram impactos emocionais e financeiros. Uma delas pagou mais de 500 libras por uma consulta por vídeo, recebendo orientações que destoavam de diretrizes oficiais. As consultoras envolvidas negaram que sua atuação substitua orientação médica.
A BBC identificou ainda a presença de outras nomes com seguidores expressivos. Dentre eles Lisa Clegg, conhecida como a “Especialista em Bebês Felizes”, que cobra por consultas e apoio contínuo, ainda que não possua formação médica. Ela recomendou posições e objetos que vão contra recomendações do NHS.
Especialistas consultados destacaram que a indústria de consultoria de sono infantil é não regulamentada no Reino Unido. A falta de qualificação formal para usar títulos como enfermeira da maternidade é foco de debates oficiais, assim como propostas de regulamentação para evitar danos aos bebês.
O governo britânico informou que pretende fechar lacunas regulatórias, impedindo que pessoas se autodefinam como enfermeiras da maternidade sem qualificação adequada. A imprensa local reporta que a medida vem após casos de morte neonatal associada a condutas de supostos profissionais.
A família Bruce Smith, de Steve Bruce, exige maior regulamentação e formação obrigatória para quem presta auxílio remunerado em sono de bebês. Segundo eles, a credibilidade de quem cuida da criança deve estar respaldada por qualificações verificáveis.
Em entrevista à BBC, Scott-Wright afirmou que seu trabalho ajuda bebês, crianças e famílias, e que prioriza a segurança. Já Clegg sustentou que apenas oferece orientação não médica, porém reconhece que muitas famílias recorrem a ela pela insuficiência de apoio do NHS.
A BBC apurou ainda que, em avaliações médicas, especialistas consultados apontaram que as recomendações apresentadas por Scott-Wright e Clegg não passam pelo crivo de profissionais de saúde. Médicos destacaram riscos reais de prática inadequada em sono infantil.
Dados internacionais indicam que, em 2022, Inglaterra e País de Gales registraram 197 mortes sem explicação de crianças com menos de um ano; na Escócia, foram 16; na Irlanda do Norte, 2. No Brasil, a Plataforma Integrada de Vigilância em Saúde registrou 117 casos de SMSL em 2025.
O NHS enfatiza que o sono seguro é fundamental para reduzir a SMSL e que o monitor de respiração não substitui supervisão direta. As autoridades reforçam que práticas não alinhadas a normas oficiais podem colocar bebês em risco.
Emily, mãe de um bebê de nove meses, relata ter visto vídeos de Scott-Wright e ainda questiona a ausência de regulamentação para quem atua na área. O bebê da família já apresenta desenvolvimento adequado, segundo a mãe.
Colaboração de Natalie Truswell.
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