Pelo menos mil animais foram resgatados pela Polícia Civil de São Paulo no primeiro trimestre deste ano, durante investigações sobre zoosadismo no Discord. A prática envolve maus-tratos a animais transmitidos ao vivo em plataformas digitais, com foco crescente em jovens e adolescentes. A apuração assinala avanço de grupos organizados que utilizam a internet para disseminar violência.
O núcleo responsável é o Noad, órgão da SSP-SP dedicado a crimes digitais, criado para monitorar atos violentos online. A delegada Lisandréa Salvariego, à frente do núcleo, explica que a violência contra animais funciona como porta de entrada para crimes mais graves, incluindo estupro virtual e indução à automutilação.
O Discord é a plataforma mais citada nas investigações. A empresa afirma manter políticas rigorosas contra abuso de animais e conteúdos prejudiciais, além de investir em ferramentas de segurança e moderação proativas para o Brasil. Parte das ações criminosas ocorre em servidores privados da plataforma.
Segundo a delegada, grupos examinados usam a violência contra animais para dessensibilizar, testar limites e atrair novos membros para atividades criminosas. Transmissões ao vivo e compartilhamento de vídeos de maus-tratos são estratégias comuns nesses ambientes.
Dados do Noad apontam que a maioria das vítimas são gatos, representando cerca de 90% dos casos monitorados. Filhotes aparecem entre as ocorrências mais vulneráveis, com maior facilidade de manipulação em transmissões.
Entre 2023 e 2024 houve crescimento no registro de maus-tratos envolvendo gatos, com 175 ocorrências em 2024 e 340 em 2023. A Polícia Civil projeta novo aumento para 2026, com monitoramento contínuo de incidentes durante a madrugada, em média entre 10 e 15 casos.
A delegada relata procedimentos de atuação rápida: quando a vítima tenta infligir dano, a família é informada e orientação é oferecida; se houver risco imediato, as autoridades acionam outras polícias para interromper o crime. Em um caso, uma adolescente em Fortaleza planejava matar o próprio gato, ação interrompida após cooperação entre estados.
O estudo do Noad também aponta falhas de moderação no Discord, como demoradas exclusões de servidores onde crimes ocorrem ao vivo e dificuldades para interromper condutas ilegais rapidamente. O relatório foi encaminhado ao Ministério Público.
Quem responde pelos crimes pode ser processado por maus-tratos a animais, tipificado pela Lei de Crimes Ambientais. Em casos envolvendo cães e gatos, a pena varia de 2 a 5 anos de reclusão, com multa e suspensão da guarda do animal; se houver morte, a punição pode aumentar.
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